segunda-feira, 29 de julho de 2013

Malaika e a andorinha - Antes, quando ainda não era o fim

No meio de uma imensa planície florestada, havia um monte e em seu topo, uma pequena casa de madeira pintada de céu claro, morada de um rapaz chamado Malaika.
Malaika estava naquela fase da vida em que o menino e o homem se confundem. Em que a maturidade por vezes espanta, por vezes falta.
O rapaz caminhava por entre as árvores galgando raízes e desviando de teias de aranha e formigueiros. Eram tantas as distrações que por vezes se esquecia de seguir o caminho que lhe levaria a sua casa.
Se sentia seguro, conhecia aquela floresta e chegar em casa seria fácil. Avistava a pequenina casa azul no topo do monte descampado e estava certo que chegaria em poucos minutos.
Passaram-se horas e o monte e a casa permaneciam exatamente do mesmo tamanho. Caminhava e caminhava, e quando voltava a procurar sua casa, ainda estava lá: azul, pequena e inalcançável.
A noite caía aos poucos e suas certezas se dissipavam junto com os raios de sol.
Quando a verdade de estar perdido lhe cercava por todos os lados, uma andorinha veio lhe fazer companhia. Ela piou, bagunçando as penas de seus quatro tons de azul, voou para mais perto, terminando por pousar em seu ombro. Malaika pensou que era estranho uma ave assustadiça se aproximar de um humano e ficou feliz pela companhia.
Quando encontrou uma caverna e dormiu, pensou que a pequena ave o teria deixado, mas ainda estava lá na manhã seguinte e também nas muitas outras que se seguiram. Às vezes voava para longe, mas sempre deixando uma promessa de retornar em formato de graveto.
Malaika e a andorinha tentavam se entender entre pios, palavras, passos e vôos.
O rapaz estava se acostumando com a floresta mas nunca deixava de pensar em sua casa azul no topo do monte. E seguia procurando um caminho que o levasse até lá.
Num dia particularmente chuvoso, Malaika andava a esmo com a andorinha no ombro até que, entre uma árvore e outra, viu sua casa azul.
Perto.
Correu em sua direção e quando o ar começou a lhe faltar, procurou sua andorinha e viu que ela havia ficado para trás. Voava em círculos nervosos.
Malaika parou sua corrida e, estático, assistia aos voos da ave. 
A andorinha não queria sair de sua floresta. Deixá-la significaria não mais vê-la?
A andorinha voou floresta adentro e antes que Malaika conseguisse se mover, voltou, lhe enchendo de gravetos.
Malaika, que não entendia a língua das andorinhas, derrubou-os todos, tentando alcançar a ave que voou para longe assustada.
Malaika tendo consciência que se encontrava entre sua bela casa azul e a floresta para onde voava sua andorinha, quis dividir-se.
Afinal, correu até a andorinha e prometeu retornar para vê-la. A andorinha, não compreendendo a língua do humano, voou baixo, rasante às raízes das árvores.
Malaika andava monte acima e a andorinha voava floresta adentro.
E algo não os deixava pensar.
Era o vento.
Ou a lembrança da companhia que nem ao menos falava a mesma língua.
Se era o fim, não sabiam. Como haveriam de saber?
A vida dá voltas. As andorinhas sabem muito bem disso.