domingo, 11 de março de 2012

Guache

Eram cores e mais cores e ela nem ao menos conseguia definir os contornos.
Sua visão parecia uma pintura a guache, só que sem a poesia.
Sentia uma dor no fundo dos olhos, daquelas dores que confundem a gente.
Ela sabia o motivo daquela dor, mas se recusava a acreditar.
Sentia um peso nos ombros que também tinha decidido ignorar.
E uma preocupação que não a deixava pensar direito.
Só falava o essencial.
O resto, falava pra dentro.
O resto crescia pra dentro.
Até que um dia estouraria em lágrimas e desespero quando sozinha em um lugar qualquer.
Mas não hoje.
Hoje ainda aguentava o peso.
Ainda se fazia de forte.
Com os olhos secos e o rosto atento, definia aos poucos os formatos do que via.
Hoje seria um longo dia.
A semana também.
E enquanto pudesse, adiaria o dia em que uma única palavra ou mesmo o silêncio a faria transbordar.
Não se conhecia.
Não sabia suas forças e fraquezas.
Também não sabia o quão longe poderia ir.
Mas não desistiria.
Ao menos isso era certo.
Isso e aquela dor no fundo dos olhos.

domingo, 4 de março de 2012

As asas


"You're waiting for someone to perform with
And don't you know that is just you?"



Eu sempre controlo as lágrimas quando chega nessa parte.
Porque, na verdade, eu sempre acreditei naqueles finais felizes de contos de fadas.
Aquela história da metade da laranja.
Apesar de não querer nunca depender de ninguém, alguma coisa dentro de mim exige aquela maluquice de companhia eterna.
Todo mundo sabe que isso praticamente não existe hoje em dia. Uma parte de mim nem acredita em casamentos.
E a outra parte é melosa. Ainda não cresceu. É dependente e insegura. Pede atenção o tempo todo.
Talvez porque a música que eu mais escutei na infância foi "Somewhere over the rainbow" e eu não tinha com quem brincar, então me restava sonhar.
E eu nunca parei de sonhar.


"Hey, Jude, you'll do
The movement you need is on your shoulder"

E essa parte da música parece que me acorda. Me arrepia inteira. Me enche de emoções que eu não sei explicar direito.
Porque eu sou toda paradoxo.
Eu quero ir pra longe. Quero fugir sem nada nem ninguém. Passarinha.
E ao mesmo tempo, quero ter um chão para me prender. Gaiola.

Mas de que adiantam as asas se a passarinha não puder voar?

Aquela passarinha que no outro dia saiu voando da gaiola
Pousada na janela, via o pôr-do-sol
As asas tremiam de vontade de voar
Sentia o vento soprando

Descobrira que liberdade é saber ser feliz
Sozinha
Ou em companhia
Ou sozinha novamente

Passarinhos não dependem de companhia para serem felizes
Porque é só bater as asas
Que a felicidade lhes incha o peito e bagunça as penas.