domingo, 30 de outubro de 2011

It's us against the world

Tocava uma música nova na rádio. Uma dessas lentas sobre amor.
Ele ouvia pouco, estava pensando em tantas coisas.
Enquanto colocava suas coisas nas malas para a grande mudança, tentava controlar as expectativas que o envolviam naquele momento.
Ele estava indo embora. Para muito mais longe do que havia esperado.
Todos insistiam para que voltasse logo, e ele concordava. Mas por dentro, sabia que talvez nunca mais voltasse. Isso ele guardava como um segredo querido e assustador, daqueles segredos especiais, como a sensação do primeiro amor, a vergonha do primeiro dia de aula e o medo do fantasma do terceiro andar do colégio.
Em suas gavetas achou cartões de ex-namoradas que nunca havia jogado fora, trabalhos da faculdade, cadernos do colégio.
Achou um desenho. Rabiscos e mais rabiscos de giz-de-cera. Só ele sabia o que significava.
Sentou-se na cama e fechou os olhos.
Como a vida muda.

Era intervalo na escolinha, mas ele não queria ir brincar. Pegou um papel e os gizes-de-cera dos alunos menores.
Ele desenhava lentamente uma linha por vez. Uma de cada cor, e nunca fiéis à realidade.
Porque ele faria um chão cinza quando podia usar o azul?
Desenhou a si mesmo, em linhas tortas que ele rabiscava por cima.
Desenhou a casa em que moraria.
A grama azul, a casa verde, o corpo vermelho, a esposa que teria, rosa, um bebê, azul céu e o cachorro, laranja.
Seu pai reclamava entre lágrimas que não tinha porque viver. Sua mãe dizia, também entre lágrimas, que ele havia enlouquecido.
Dobrou o desenho e colocou no bolso.
"Ninguém vai chorar por mim. Já tenho porque viver."