sábado, 23 de julho de 2011

Sinceramente

Perguntaram se estava tudo bem. Ela sempre respondia positivamente, não gostava de envolver os outros em seus problemas. Não havia necessidade.
Era um sábado como outro qualquer, exceto por aquelas nuvens que não se via há tempos em terras tropicais.
Era um apartamento como outro qualquer, mas era grande e não era seu. Ela havia passado toda sua vida naquele lugar, mas nunca se sentiu pertencente àquela casa, até porque, uma casa, para ser dela, teria que ser muito mais colorida e aconchegante. Mais tropical e menos fria.
Sua vida era colorida e feliz, apesar de tudo. E isso era sua maior conquista: Ter superado a solidão e a tristeza que a dominavam sem avisar naqueles tempos mais escuros, quando as nuvens teimavam em esconder seu sol.
Agora, ela era toda Rio de Janeiro.
Ela estava tranquila. Porque a vida era curta e se irritar era perda de tempo.
Estava feliz, porque construiu um lar dentro dela e isso a permitia fugir para qualquer lugar e ainda assim, se sentir em casa.
Perguntaram se estava tudo bem e ela respondeu um "está tudo tranquilo", como sempre fazia. Mas dessa vez era sincero.

sábado, 16 de julho de 2011

Passarinha

Era aquele vento que não a deixava pensar.
Era que o vento a empurrava em direção ao desconhecido, e ela tinha medo de se deixar levar.
Era o costume de estar sempre com as mesmas pessoas, fazendo as mesmas coisas, e dizendo tentar fugir.
Mas na verdade, verdade mesmo, não fugia.
Muitas vezes, nem tentava.
Na verdade, apaixonara-se pela rotina que não havia escolhido.
Amava aquelas pessoas.
Amava aquele lugar.
Aquela responsabilidade que lhe deram de cantar para alegrar os outros.
E tinha medo de não encontrar tudo isso em outros lugares.
Mas, ao mesmo tempo, queria voar.
Voar alto.
Sumir nas nuvens.
Uma parte de si nem pensava em voltar depois.
E ela, dividida, aprendeu a gostar da gaiola e sonhar com as nuvens e, quando deixaram a portinhola aberta, apavorou-se.
Entrou em crise, e em crise está.
Com medo de fugir e com medo de ficar.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Crônica de duas pessoas e um fim

Ele veio por trás e a abraçou forte, como sempre fazia. Ela tentou conter sua vontade de esquivar-se.
Ela lembrava que o tinha amado muito em algum momento da vida, e para onde foi todo esse amor?
Parecia que seu corpo inteiro pesava o dobro.
Tentava lembrar-se dos motivos que a levaram a apaixonar-se por ele. Talvez se conseguisse lembrar, poderia apaixonar-se de novo. Essas coisas acontecem, não acontecem? De apaixonar-se de novo pela mesma pessoa? Ela não sabia.
Ela o tolerava pelo peso da história dos dois e por medo de machucar mais uma pessoa.
Ela detestava machucar as pessoas, mas isso acontecia com uma frequência muito maior do que ela gostaria.
Era ela quem sempre terminava os relacionamentos. Era ela quem abrandava os gritos das discussões com aquela voz macia de quem sabe que é culpado, quem afagava a cabeça do outro até as lágrimas pararem de rolar.
Era ela quem partia os corações de quem a amava.
E estava prestes a fazer isso de novo.
Há muito tempo chegou a ir a algumas sessões com um psicólogo que sua tia indicara, com a desculpa de aliviar a dor da perda do pai. Ele a havia dito para analisar o seu pavor de criar raízes.
Ela se lembrava disso a cada final de relacionamento.
Ela olhou nos olhos dele. Ele era puro amor e dedicação. E ela, só dúvidas e a certeza de não o amar mais.
Manteve o olhar fixo nele, afim de se lembrar para sempre daquele momento. O último momento em que ainda era permitido a eles a intimidade dos namorados.
Piscou forte, com mais uma certeza. Ela nunca o esqueceria.