domingo, 30 de janeiro de 2011

Maior

Era uma vez, um menino.
Estava deitado em sua cama, acordado, mas com os olhos bem fechados.
Ele morava em uma casa pequena, em uma cidade pequena, de um país pequeno.
Ali, os sonhos eram pequenos.
Os erros eram pequenos.
As expectativas também.
E as pessoas eram felizes.
Todos na cidade dormiam tranqüilos, menos o nosso menino.
Havia algo que o atormentava. Um desejo. Uma vontade incontrolável de ser...

Grande.

Não era questão de idade. Quer dizer, talvez até fosse um pouco, mas não era só isso.
Ele estava percebendo que não cabia naqueles sonhos minúsculos, nem naquela cidade e talvez nem naquele país.
A consciência do seu tamanho caiu em seus ombros naquela noite e não o deixava dormir.
Não é que era infeliz. Sua família era ótima e tinha bons amigos.
Mas a partir daquele momento, seria impossível ser plenamente feliz, tendo que se espremer para caber naquela vida.
Estava apavorado. Não ousava abrir os olhos. E passou a noite inteira assim.
Pela manhã, estava se sentindo um pouco melhor. A escuridão sempre alimenta nossos medos.
Quando a claridade entrou no quarto, ele sentiu que conseguiria encarar a vida de novo e levantou-se, esfregando os olhos.
Mais tarde, se encheu de coragem e contou para seu pai em segredo o que estava pensando.
Se arrependeu no momento em que seu pai abria a boca para responder. Já sabia o que ouviria.
"Quando eu era pequeno também pensava assim. Nós somos iguais, meu filho. Isso passa. Seu futuro é aqui."
A resposta que recebera ecoava pelos cantos da casa num silvo baixo. Ecoou durante toda a noite dentro de sua cabeça e por anos a fio em sua vida até quase chegar a acreditar que era verdade.
Mas não era.
E um belo dia ele cresceu.
Superou as expectativas, aprendeu rápido, cumpriu prazos, engoliu críticas e amou, sofreu, amou de novo.
E foi promovido a gerente, a diretor, a presidente, a marido, a pai.
E quando chegou a hora, colocou a família em um barco bem grande e foi embora.
Ainda há notícias dele nos jornais. Diz que quer virar astronauta.
Talvez a Terra não seja grande o suficiente para ele.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Confissões de quem anda matando um leão por dia

Eu queria um chão mais firme.
Ou chão nenhum para fazer da queda, vôo.
Mas essas vezes que tenho que me equilibrar entre pedaços de chão oscilantes e abismo me tiram do sério.
Algum dia ainda perco a paciência de vez e me jogo no horizonte.
Vamos testar aonde me levam as minhas asas?

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

No mundo da Lua

Tinha uma moça sentada sozinha no banco de uma praça vazia.
Intercalava momentos em que exibia seu bonito sorriso com outros momentos que parecia conter todo o sofrimento do mundo dentro de si.
Seu rosto, molhado de lágrimas e chuva, brilhava com o reflexo da luz.
Fiquei olhando um pouco mais até que alguém me disse por entre resmungos: "É louca!"
Depois de um tempo reparei que ela falava sozinha. Brincava sozinha. Vivia na fantasia. Inventou um mundo em que ela era rainha, em que não havia fome e tudo era bonito. Às vezes voltava para o nosso mundo apenas para descobrir que sua vida não era melhor que suas fantasias. Então voltava a sonhar.
E quem pode culpá-la?
Tantas vezes a gente mesmo faz isso.
Só podemos torcer para que seja feliz, apesar de tudo.