domingo, 30 de outubro de 2011

It's us against the world

Tocava uma música nova na rádio. Uma dessas lentas sobre amor.
Ele ouvia pouco, estava pensando em tantas coisas.
Enquanto colocava suas coisas nas malas para a grande mudança, tentava controlar as expectativas que o envolviam naquele momento.
Ele estava indo embora. Para muito mais longe do que havia esperado.
Todos insistiam para que voltasse logo, e ele concordava. Mas por dentro, sabia que talvez nunca mais voltasse. Isso ele guardava como um segredo querido e assustador, daqueles segredos especiais, como a sensação do primeiro amor, a vergonha do primeiro dia de aula e o medo do fantasma do terceiro andar do colégio.
Em suas gavetas achou cartões de ex-namoradas que nunca havia jogado fora, trabalhos da faculdade, cadernos do colégio.
Achou um desenho. Rabiscos e mais rabiscos de giz-de-cera. Só ele sabia o que significava.
Sentou-se na cama e fechou os olhos.
Como a vida muda.

Era intervalo na escolinha, mas ele não queria ir brincar. Pegou um papel e os gizes-de-cera dos alunos menores.
Ele desenhava lentamente uma linha por vez. Uma de cada cor, e nunca fiéis à realidade.
Porque ele faria um chão cinza quando podia usar o azul?
Desenhou a si mesmo, em linhas tortas que ele rabiscava por cima.
Desenhou a casa em que moraria.
A grama azul, a casa verde, o corpo vermelho, a esposa que teria, rosa, um bebê, azul céu e o cachorro, laranja.
Seu pai reclamava entre lágrimas que não tinha porque viver. Sua mãe dizia, também entre lágrimas, que ele havia enlouquecido.
Dobrou o desenho e colocou no bolso.
"Ninguém vai chorar por mim. Já tenho porque viver."

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Almoço dos Barqueiros

"- Sabe a garota do copo d'água?
- Sei.
- Se parece distante talvez seja porque está pensando em alguém.
- Em alguém do quadro?
- Não, um garoto com quem cruzou em algum lugar e sentiu que eram parecidos.
- Em outros termos, prefere imaginar uma relação com alguém ausente a criar laços com os que estão presentes.
- Ao contrário, talvez tente arrumar a bagunça da vida dos outros.
- E ela? E a bagunça na vida dela? Quem vai pôr ordem?"

sábado, 27 de agosto de 2011

A correria

A mais pura verdade me encarou surgida entre trabalhos, estudos, relatórios, notícias ruins, preocupações e prazos.
A melhor parte de não ter tempo é não ter tempo pra sofrer.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Caos próprio

Naquela casa, as janelas eram todas voltadas para becos entre prédios, por isso as cortinas coloridas sempre fechadas.
As lâmpadas eram fortes para espantar a preguiça e a solidão.
O chão de tacos quebrados ficava escondido debaixo dos tapetes.
Por cima deles, passeavam quatro pés e quatro patas.
As patas batiam barulhentas e firmes, sinalizando a atividade do cãozinho e incomodando os vizinhos.
Os pés pertenciam a um casal que vivia a tropeçar nas beiradas dos tapetes e, por isso, xingavam alto as mães alheias, apavorando os vizinhos.
Era um pequeno apartamento colorido em completa e incontrolável bagunça.
Nada se achava ali. Era o próprio caos.
Mas era deles.
E além daquele apartamento e si mesmos, não tinham nada no mundo.
Até o cãozinho às vezes sumia e reaparecia, exibindo sua independência.
Gostavam daquele cantinho, apesar de tudo.
O que mais queriam era mais dois pezinhos se equilibrando naquele chão.

sábado, 23 de julho de 2011

Sinceramente

Perguntaram se estava tudo bem. Ela sempre respondia positivamente, não gostava de envolver os outros em seus problemas. Não havia necessidade.
Era um sábado como outro qualquer, exceto por aquelas nuvens que não se via há tempos em terras tropicais.
Era um apartamento como outro qualquer, mas era grande e não era seu. Ela havia passado toda sua vida naquele lugar, mas nunca se sentiu pertencente àquela casa, até porque, uma casa, para ser dela, teria que ser muito mais colorida e aconchegante. Mais tropical e menos fria.
Sua vida era colorida e feliz, apesar de tudo. E isso era sua maior conquista: Ter superado a solidão e a tristeza que a dominavam sem avisar naqueles tempos mais escuros, quando as nuvens teimavam em esconder seu sol.
Agora, ela era toda Rio de Janeiro.
Ela estava tranquila. Porque a vida era curta e se irritar era perda de tempo.
Estava feliz, porque construiu um lar dentro dela e isso a permitia fugir para qualquer lugar e ainda assim, se sentir em casa.
Perguntaram se estava tudo bem e ela respondeu um "está tudo tranquilo", como sempre fazia. Mas dessa vez era sincero.

sábado, 16 de julho de 2011

Passarinha

Era aquele vento que não a deixava pensar.
Era que o vento a empurrava em direção ao desconhecido, e ela tinha medo de se deixar levar.
Era o costume de estar sempre com as mesmas pessoas, fazendo as mesmas coisas, e dizendo tentar fugir.
Mas na verdade, verdade mesmo, não fugia.
Muitas vezes, nem tentava.
Na verdade, apaixonara-se pela rotina que não havia escolhido.
Amava aquelas pessoas.
Amava aquele lugar.
Aquela responsabilidade que lhe deram de cantar para alegrar os outros.
E tinha medo de não encontrar tudo isso em outros lugares.
Mas, ao mesmo tempo, queria voar.
Voar alto.
Sumir nas nuvens.
Uma parte de si nem pensava em voltar depois.
E ela, dividida, aprendeu a gostar da gaiola e sonhar com as nuvens e, quando deixaram a portinhola aberta, apavorou-se.
Entrou em crise, e em crise está.
Com medo de fugir e com medo de ficar.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Crônica de duas pessoas e um fim

Ele veio por trás e a abraçou forte, como sempre fazia. Ela tentou conter sua vontade de esquivar-se.
Ela lembrava que o tinha amado muito em algum momento da vida, e para onde foi todo esse amor?
Parecia que seu corpo inteiro pesava o dobro.
Tentava lembrar-se dos motivos que a levaram a apaixonar-se por ele. Talvez se conseguisse lembrar, poderia apaixonar-se de novo. Essas coisas acontecem, não acontecem? De apaixonar-se de novo pela mesma pessoa? Ela não sabia.
Ela o tolerava pelo peso da história dos dois e por medo de machucar mais uma pessoa.
Ela detestava machucar as pessoas, mas isso acontecia com uma frequência muito maior do que ela gostaria.
Era ela quem sempre terminava os relacionamentos. Era ela quem abrandava os gritos das discussões com aquela voz macia de quem sabe que é culpado, quem afagava a cabeça do outro até as lágrimas pararem de rolar.
Era ela quem partia os corações de quem a amava.
E estava prestes a fazer isso de novo.
Há muito tempo chegou a ir a algumas sessões com um psicólogo que sua tia indicara, com a desculpa de aliviar a dor da perda do pai. Ele a havia dito para analisar o seu pavor de criar raízes.
Ela se lembrava disso a cada final de relacionamento.
Ela olhou nos olhos dele. Ele era puro amor e dedicação. E ela, só dúvidas e a certeza de não o amar mais.
Manteve o olhar fixo nele, afim de se lembrar para sempre daquele momento. O último momento em que ainda era permitido a eles a intimidade dos namorados.
Piscou forte, com mais uma certeza. Ela nunca o esqueceria.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Sobre o mundinho de sonhos polidos

Eu podia te dar meu chão, eu sei que você precisa, mas eu não tenho um. O meu sumiu, ou nunca existiu mesmo.
Minhas raízes que me prendiam neste chão se desfizeram em terra quando eu fui crescendo. Aos poucos fui criando minhas raízes pra dentro.
Comecei criando amigos, companhias pra brincar. Acabei criando um mundo, quase real e muito tentador de mergulhar.
Talvez ninguém entenda o quanto o meu mundo inventado está perto de mim. E muitas vezes ele faz mais sentido que o mundo real.
Estou quase afogada nos meus sonhos.
Você quer um motivo para eu odiar filmes de terror? Eles se infiltram nos meus sonhos. Eu pisco e eles aparecem de novo.
É o mesmo para histórias tristes, porque elas sempre estão envoltas em horror.
E o meu mundo toma a forma do que me impressiona.
Me surpreenda e você fará parte dos meus sonhos. É por aí mesmo. É fácil.
Acho que seria mais saudável se eu vivesse mais com os pés no chão, mas não teria graça.
Minha vida não tem graça sem sonhos.
Quando minha vida for no mínimo tão interessante e surpreendente quanto as minhas fantasias, então eu tento largar este vício de imaginar tudo.
Por enquanto controlo meus próprios sonhos pegando emprestado fantasias alheias em formato de livros.
Li um não tão bom esse final de semana.
Escolhi este livro porque ele é laranja e lindo e na contra-capa dizia que qualquer coisa a falar deste livro estragaria a história, e eu achei interessante a sinopse do livro se recusar a ser sinopse.
Eu ía começar a falar dos livros e da minha concepção de um bom livro, mas isso dá outro post.
Numa outra hora eu continuo, por enquanto se satisfaçam com esse desabafo imperfeito de um menina cheia de sonhos.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Minha falta de motivos

Eu podia me vestir de desculpas. E eu tenho várias.
Falta de tempo, cansaço, tpm, as outras provas dessa semana...
Mas eu não vou fazer isso.
Quando começou esse ano, eu coloquei na minha cabeça que seria mais direta, que esconderia menos as coisas importantes.
Eu deveria estar estudando agora.
Mas eu não me importo.
Esse é o problema. Ultimamente não tenho me importado com quase nada.
Muito menos com repetir ou não uma matéria que eu não me interesso.
Mas eu estou me esforçando (pouco, é verdade) para estudar, ao mesmo tempo que eu não consigo parar de me perguntar se eu não seria muito mais feliz se eu estivesse fazendo artes plásticas ou qualquer faculdade mais humana, mesmo se eu não tivesse dinheiro. E talvez eu nunca alcançasse meus objetivos financeiramente falando, mas o que é que importa na vida mesmo?
Estou meio perdida.
Alguém me dá uma luz?
Ou um motivo para estudar?

sábado, 7 de maio de 2011

Água para elefantes

Acabar de ler um livro querido é uma situação muito esquisita. Faz algum tempo que não leio um que me prenda tanto a atenção. Na primeira página, eu mergulhei de cabeça e ainda me sinto como se estivesse no circo, onde se passa a história.
Passei a semana dividindo meus pensamentos, alegrias e tristezas com um velhinho e uma elefanta, meus dois personagens preferidos. Soube de seus medos, suas vergonhas, seus pecados e agora, de uma hora para outra, eles vão embora.
Me deixam aqui para continuar essa minha vida tão diferente e com tão menos cores do que as deles.
É que eles parecem tão reais que nem por um segundo assumo a possibilidade de que eles não tenham vivido de verdade. Me parece mais possível que eu mesma seja o personagem.
Acabo saindo, ou sendo arrancada, da história pela última página que contém um resumo, pela autora, das inspirações que a levaram a escrever o livro, e me pego vergonhosamente assombrada pelo fato de que eles só existem escritos.
Eles parecem muito mais reais do que muita gente por aí.
O livro é este, mas eu não sou fã de sinopses. Elas enganam a gente. 
Afinal, sinopses são resumos de livros e um bom livro não se consegue resumir. Qualquer palavra retirada é uma perda irreparável. Por isso as traduções e adaptações também são perigosas.
Caso alguém ainda não saiba, estão fazendo um filme dele. Não tenho certeza de que quero assistir. Vai ser decepcionante e eu não tenho dúvidas disso.
O circo que eu criei, com base em cada palavra, com a tenda branca e grená, a graça e a mágica do trem e a doçura e a inconstância dos animais, o melhor diretor do mundo nunca vai conseguir superar.

sábado, 23 de abril de 2011

Wanderlust

Trilha sonora de hoje.
Essa semana fui à Paquetá. Uma ilha linda, com aquela graça de cidade pequena. Todos se conhecem, se visitam e dividem espaço com bicicletas, cavalos e quase nenhum carro.
Pensei na beleza de ser feliz ali. Em crescer brincando na rua, se apaixonar pelo vizinho, casar, ter filhos, e ficar velhinha cuidando da casa e das criancinhas que passam pra visitar a vovó e comer biscoitos.
Tudo isso passou muito rápido pela minha cabeça enquanto eu passeava com uma bicicleta sem freio pelas ruas sem asfalto e dividia meus pensamentos entre o trabalho que eu tinha que fazer lá e a beleza daquele lugar. Passou rápido e foi embora. Eu nunca conseguiria viver com um horizonte tão pequeno, em um bairro tão pequeno, isolado do resto do mundo. Mas é bom de visitar.


*


Não sei se já falei aqui algo do tipo, mas a minha palavra preferida é Wanderlust.
Não é lá tão fácil traduzir com palavras, é sempre difícil colocar sensações em palavras. Acaba saindo um texto poético, e como toda poesia, com várias interpretações.
Quando eu esbarrei nessa palavra, percebi o quanto precisava dela. Sempre senti isso tão forte, e eu precisava de tantas palavras pra definir, e, como sempre, tenho muita dificuldade de organizar todos os pensamentos de um jeito compreensível.
Daí vem uma palavra, uma palavrinha só, e define tudo o que eu precisava. 
Wanderlust é a desejo irresistível de ir embora. De viajar, de sair de onde você está. De expandir os horizontes para todos os lados. Ir pra onde? Não importa. É uma angústia que quem já sentiu, entendeu na primeira frase do que eu estou falando. Aquele saber que você não pode ficar onde está. Simplesmente não pode, talvez você nunca saiba o porquê.
Saudade também é uma palavra bonita. É mais bonita por ser nossa. Por traduzir o carinho do brasileiro.
Mas eu tenho um mimo especial por Wanderlust.
Esse pavor de criar raízes por aqui. Ou em qualquer outro lugar.
Para mim, ela não tem a concepção quase fútil de conhecer todos os lugares do mundo por curiosidade ou coisa do tipo. Não é uma opção por vontade. Não é nem vontade. É mais falta de opção mesmo, uma angústia que não deixa a gente. Que obriga o movimento. Não deixa a gente ser feliz parado. Não sei se consegui definir direito. Para mim essa palavra é muito mais do que palavra. É que nem amor ou liberdade que você sente e não sabe explicar.

Gosto demais dessa palavra, e acho que é porque ela é muito, muito minha.

domingo, 17 de abril de 2011

Essa ausência assimilada

Estou com saudades de sentir aquele friozinho na barriga.
É esquisito isso.
Eu, a eterna apaixonada, que com o tempo troca de amores impossíveis para não dar tempo de ficar sem ter com quem sonhar acordada, ultimamente está sem ninguém para cair de amores.
Ás vezes sonho acordada com os amores antigos só pra não perder o costume da fantasia, que eu acho tão bonito. Mas não é a mesma coisa.
É estranho não ficar super ultra comovida por músicas românticas. Não pensar em ninguém em especial quando vejo um filme mais meloso.
Eu sinceramente não lembro da última vez em que isso aconteceu. Desde o Jardim que eu pulo de uma paixão não-correspondida para outra.
Agora, quando eu saio de casa para fazer qualquer coisa, não fico torcendo pra esbarrar com ninguém em especial. Na verdade, muitas vezes torço mesmo é pra não encontrar ninguém.
Minha companhia me é bem mais que suficiente.
Nunca foi assim, mas até que estou me acostumando bem...

"Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim."
Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Estrelas no cantinho do caderno

Eu poderia dizer que não tive tempo de postar todos esses dias e eu aposto que ninguém que conhece a minha vida duvidaria. Mas na verdade nem foi por isso.
Tem tantas coisas que eu sinto e não sei explicar. Será que é por isso que sou mais quieta que as outras pessoas? 
Passei algumas semanas sem escrever. Nem sequer uma frasezinha no verso do caderno. Nem versinho a caneta na palma da mão. Nem post no blog secreto. Nem um tweet. Nada. 
Todas as minhas palavras foram substituídas por desenhos bestas  e assinaturas em toda superfície que seja boa de escrever.
E o que acontece aqui dentro parece grande demais para caber em palavras. 
E agora?
Será que existe vocabulário pra descrever tudo isso?
Talvez as palavras existam mesmo, mas eu estou com medo de tentar decifrar essas coisas que estou sentindo.
E conseguir.

sábado, 12 de março de 2011

É só respeito pela vida

Senhoras e senhores, mais uma turbulência.
Foram achados na minha empresa cinco filhotinhos de gato órfãos e pequenos demais para se cuidarem sozinhos. Os Turbo-gatos.
Três conseguiram donos, e eu espero de todo o meu coração que eles estejam cuidando muito bem deles. Trouxe duas gatinhas, coloquei no colo e segurei firme uma delas pra aquecer até ela dormir, fiquei presa fora de casa, dei leitinho no conta gotas, limpei bumbum, levei arranhõezinhos e mordidinhas de boquinhas sem dentes, deixei criancinhas fazerem carinho nas micro-gatas, passei em não sei quantas pet shops, chorei de medo de não encontrar uma casinha pra elas e acabei encontrando uma veterinária para ficar e cuidar das pequetitas. E agora eu até posso visitá-las quando der vontade.
As caixinhas de papelão tem uma certa mágica de fazer os bichinhos mais frágeis e de fazer você lutar por eles. É a única explicação de que duas coisinhas tão pequetitinhas que eu conheci ontem me façam tanta falta agora.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Segurem-se, passageiros

Eu acho engraçado que quando bobagens ocupam minha cabeça, elas parecem tão maiores do que os meus problemas de verdade.
E elas me fazem perder o foco, me preocupar com as coisas erradas e simplesmente não me importar com nada mais. Nada mesmo. Não escutar as pessoas falando, não abrir os arquivos certos e às vezes eu até páro pensando "O que era mesmo que eu estava fazendo?".
É o contrário daquela história do Ford Prefect que eu coloquei no meu perfil. Se os lábios ficam muito tempo fechados, é porque o cérebro está funcionando até demais.
É esquisito.
Mas eu até gosto de turbulências desse tipo.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Where the wild things are

Tem um livro infantil chamado "Where the wild things are" de Maurice Sendak que foi adaptado para filme. No Brasil, o nome é "Onde vivem os monstros".
Quando vi o trailer me deu muita vontade de assistir o filme, porque é uma história que eu poderia muito bem ter inventado!
A história é de um menino que fica de castigo e, fechado no seu quarto, inventa um mundo só dele, repleto de monstros e aventuras. O filme é um pouco diferente do livro pelo que eu percebi nas críticas.
Não é nada infantil. Fala de se sentir desprezado, solidão, tristeza e de como um garotinho encara tudo isso.
Fala muito do que é importante na vida.
Achei o filme um pouco devagar, mas uma gracinha. De verdade.
Vê e depois me diz: onde vivem os monstros?
Link do IMDB.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

O que é importante

Andava apressado e não viu o espetáculo que era aquele pôr-do-sol.
Não viu a criança ao seu lado rindo do algodão-doce, achando que era nuvem.
Ignorou também a existência de uma feira cheia de artigos coloridos e diferentes.
Se abaixou para pegar uma folha que caíra da sua mão e não viu a mulher lindíssima que passou ao seu lado.
Escurecia e ele continuou andando quase correndo, carregando nas costas suas mil preocupações que o cegavam para a vida.
Não viu um cachorro arrastar o dono até a padaria só para assistir aos frangos girando.
Não viu também as bolinhas de gude com que as crianças estavam brincando e tropeçou, caindo de costas.
Pelo menos viu as estrelas.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Maior

Era uma vez, um menino.
Estava deitado em sua cama, acordado, mas com os olhos bem fechados.
Ele morava em uma casa pequena, em uma cidade pequena, de um país pequeno.
Ali, os sonhos eram pequenos.
Os erros eram pequenos.
As expectativas também.
E as pessoas eram felizes.
Todos na cidade dormiam tranqüilos, menos o nosso menino.
Havia algo que o atormentava. Um desejo. Uma vontade incontrolável de ser...

Grande.

Não era questão de idade. Quer dizer, talvez até fosse um pouco, mas não era só isso.
Ele estava percebendo que não cabia naqueles sonhos minúsculos, nem naquela cidade e talvez nem naquele país.
A consciência do seu tamanho caiu em seus ombros naquela noite e não o deixava dormir.
Não é que era infeliz. Sua família era ótima e tinha bons amigos.
Mas a partir daquele momento, seria impossível ser plenamente feliz, tendo que se espremer para caber naquela vida.
Estava apavorado. Não ousava abrir os olhos. E passou a noite inteira assim.
Pela manhã, estava se sentindo um pouco melhor. A escuridão sempre alimenta nossos medos.
Quando a claridade entrou no quarto, ele sentiu que conseguiria encarar a vida de novo e levantou-se, esfregando os olhos.
Mais tarde, se encheu de coragem e contou para seu pai em segredo o que estava pensando.
Se arrependeu no momento em que seu pai abria a boca para responder. Já sabia o que ouviria.
"Quando eu era pequeno também pensava assim. Nós somos iguais, meu filho. Isso passa. Seu futuro é aqui."
A resposta que recebera ecoava pelos cantos da casa num silvo baixo. Ecoou durante toda a noite dentro de sua cabeça e por anos a fio em sua vida até quase chegar a acreditar que era verdade.
Mas não era.
E um belo dia ele cresceu.
Superou as expectativas, aprendeu rápido, cumpriu prazos, engoliu críticas e amou, sofreu, amou de novo.
E foi promovido a gerente, a diretor, a presidente, a marido, a pai.
E quando chegou a hora, colocou a família em um barco bem grande e foi embora.
Ainda há notícias dele nos jornais. Diz que quer virar astronauta.
Talvez a Terra não seja grande o suficiente para ele.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Confissões de quem anda matando um leão por dia

Eu queria um chão mais firme.
Ou chão nenhum para fazer da queda, vôo.
Mas essas vezes que tenho que me equilibrar entre pedaços de chão oscilantes e abismo me tiram do sério.
Algum dia ainda perco a paciência de vez e me jogo no horizonte.
Vamos testar aonde me levam as minhas asas?

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

No mundo da Lua

Tinha uma moça sentada sozinha no banco de uma praça vazia.
Intercalava momentos em que exibia seu bonito sorriso com outros momentos que parecia conter todo o sofrimento do mundo dentro de si.
Seu rosto, molhado de lágrimas e chuva, brilhava com o reflexo da luz.
Fiquei olhando um pouco mais até que alguém me disse por entre resmungos: "É louca!"
Depois de um tempo reparei que ela falava sozinha. Brincava sozinha. Vivia na fantasia. Inventou um mundo em que ela era rainha, em que não havia fome e tudo era bonito. Às vezes voltava para o nosso mundo apenas para descobrir que sua vida não era melhor que suas fantasias. Então voltava a sonhar.
E quem pode culpá-la?
Tantas vezes a gente mesmo faz isso.
Só podemos torcer para que seja feliz, apesar de tudo.