quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Curvas

Era uma vez um planeta exatamente cúbico. Ele tinha uma órbita retangular ao redor de uma estrela também cúbica e comportava quase 7 bilhões de pequeninos habitantes poligonais, deslizando por seus planos, se equilibrando em suas arestas.
Nesse planeta as curvas não tinham vez. Os poucos seres que nasciam mais arredondados eram olhados com desprezo.
Mas, em uma casa pintada de xadrez, com chão de azulejos, nasceu uma menina redonda. Perfeitamente redonda.
Foi uma tragédia na família. O pai recusou a menina dizendo que a filha não era dele e separou-se da esposa. A mãe teve pena da criança, que em nada tinha culpa por nascer diferente, e criou-a como se criava uma criança paralelepípidica.
Mas a criança fazia perguntas demais. Não entendia como podia ser tudo tão linear. Enxergava mil outras maneiras mais fáceis de resolver os mesmo problemas e não concebia que todos tivessem opiniões tão... quadradas! (Você também pensaria assim se visse o mundo por coordenadas polares.)
Seu raciocínio nunca era direto. Sua lógica espiralava em torno das circunstâncias, chegando aos resultados mais improváveis.
Por isso mesmo entendia mais da vida.
Quando nova, se sentia excluída por ser diferente. Cresceu e viu que não sabia viver de outra forma. Não saberia ser linear e viu que nascer redonda fez com que tudo para ela fosse mais simples.
Resolveu que obrigaria seu planeta a ter curvas e viveu a esbarrar nos trapézios obesos, nos paralelepípedos baixinhos e fortões ou compridos e magrelos, também nos cubos tão antiquados, e em todas as formas pontudas, retirando pedacinhos e arredondando a vida no planeta.
Mas aos poucos ela mesma perdia pedacinhos e ganhava pontas.
Apesar disso, ela viveu bem e por muito tempo e foi muito feliz enquanto duraram suas curvas.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

O que é novo

Eu quero um tênis novo que seja branco, mas daquele branco que só o que é novo tem.
Quero novas matérias na faculdade que sejam interessantes e, principalmente, sejam dadas por bons professores.
Quero aprendizados novos.
Quero pessoas novas. E antigas também.
Quero esperanças renovadas para perseguir objetivos antigos.
E também quero metas novas.
Caminhos novos.
Por que não? Países novos!
Línguas novas!
Gestos novos...
Mas não quero nada que seja indireto!
Torço para que flechas no peito, tapas na cara e amores escancarados substituam tudo o que tem a terrível mania de se esconder.
Não quero tranqüilidade. Sou muito nova pra isso.
Quero movimento. Agitação.
Calor.
Quero verdades novas. Brilhando de novas.
Quero ouvir vozes desconhecidas e sotaques esquisitos.
Quero imitar os sotaques e fazer alguém rir.
Quero fazer muita gente rir.
Quero um mosaico de sorrisos bonitos.
Também quero um chão novo. Um teto novo. E paredes novas para combinar. Mas talvez em um outro tempo. Não adianta criar tantas expectativas agora.
Mas eu ainda quero expectativas novas para poder superar.
Quero crescer. Expandir meus horizontes.
Longe de mim querer tudo branco. Quero muito mais do que isso. E nem me venha com Technicolor!
Quero cores estonteantemente novas!
E quero um ano novo para combinar com minha vida colorida e meus sonhos queridos, apesar de tão antigos.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Pequenas corrupções

Estava aqui pensando nas pequenas corrupções de todos os dias e com as quais estamos acostumados.
Tão acostumados que não percebemos o tamanho absurdo que elas são.
Porque a gente ouve que os políticos roubam dinheiro da saúde, da educação e a gente se revolta, mas quando é com a gente, passa a ser perdoável.
Por que roubar (ou desviar, é a mesma coisa) brinquedo(s) que seria(m) doados para crianças carentes seria menos grave do que embolsar o dinheiro revertido para educação infantil?
Me ensinaram a ser honesta quando criança e eu nunca mais esqueci.
Eu devolvo o troco a mais, devolvo a carteira achada na rua (com tudo dentro), viro o rosto quando as pessoas colocam a senha nas maquininhas de cartão, mas no fim, parece que estou sozinha...
Por que só eu fiquei surpresa com uma coisa tão absurda quanto o roubo de um brinquedo? A negação da alegria de ganhá-lo para uma criança que não tem nem ao menos roupas decentes para vestir?
Porque a corrupção já está entranhada na gente.
E a política reflete o povo que é governado.
Quer saber, a gente não tem moral para reclamar dos políticos.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Sonhadores

Ele saiu de casa achando que era dia normal
Foi andando apressado achando que podia voltar no tempo
Tropeçou nos cadarços achando que tinha pedra no caminho
Fechou os olhos achando que era sonho
Durante a queda, não se segurou achando que podia voar
Se chocou contra o chão achando que era macio
Abriu os olhos achando que era o paraíso
Aceitou a ajuda de um senhor achando que era um anjo
Sorriu achando que aquele era o próprio Deus
"Coitado! Bateu com a cabeça! Deve ter afetado o raciocínio. Você está me ouvindo?" 
Olhou pra baixo achando que ninguém entenderia
Como é difícil a vida dos sonhadores!