sexta-feira, 18 de junho de 2010

No mundo da Lua

Joana mantinha os olhos grudados no azul do céu. Que será que aquelas nuvens tanto escondiam? Pensava em anjinhos voando lá no alto enquanto era puxada pelo braço pela sua mãe que de vez em quando lhe dava um puxão mais forte, seguido de um "Olha pra frente, garota!", mas o céu era misterioso demais para que ela pudesse prestar atenção em outra coisa.
Ouvia de sua mãe que Deus morava no céu. Se esforçava, mas não conseguia ver nada em que ele pudesse morar. E Deus não podia morar numa nuvem. Isso é coisa de anjo, que se faz de transparente quando a gente olha mais atento. "A casa dele deve ser bem escondida! Não aparece nem nos dias de céu claro!"
E é difícil pensar em céu sem pensar em inferno. Olhou pra frente tentando expulsar o pensamento. A imagem que dominava sua mente era um lugar vermelho, recheado de gritos, com alguém rindo no fundo. "Tadinhos. Os que moram lá nunca devem ganhar sobremesa."


Enquanto fingia interesse nas fofocas do colégio que sua amiga contava animadamente, Joana pensava no que seria de seu futuro. Queria encontrar um daqueles príncipes lindos de países pequenos e distantes que aparecem nos contos de fadas. Não precisava do cavalo branco, mas a moto era indispensável. E as flores que ele traria quando fosse encontrá-la.


"Isso cai na prova!" Bradou o professor do alto de seu 1,95m. Joana acompanhava seu andar com o olhar. Ele era tão magro e tão alto que, quando passava uma brisa um pouco mais forte, dava medo de que se partisse. Joana imaginou a porta da sala se abrindo e um sopro de vento levando-o janela afora no meio de uma de sua explicações entediantes sobre briófitas.


Seu chefe discutia algo que claramente era importante para ele. Joana respondia com acenos de cabeça. Sabia que devia prestar atenção, mas o chefe estava usando uma blusa com estampa de onça e uma gravata de zebra. Com certeza pôs ambos juntos com a intenção de combinar. Deve ter saído de casa pensando: Hoje o tema é selva! "Ele deve ser competente. Não é possível que alguém que se vista assim chegue a um cargo de chefia sem ter algo que compense..."
- O que você acha, Joana?
Joana abriu bem os olhos sem ter o que responder. Não fazia idéia do assunto da conversa. Abaixou a cabeça e disse baixinho "Ah, eu acho que concordo."


As pessoas estavam tão bem vestidas! Cabelos arrumados, maquiagem impecável. Havia flores por todos os lados e o perfume das rosas que invadia o salão disputava espaço com os perfumes femininos e masculinos tão exóticos que dominavam o ar.
Todos sorriam. Era tão bonito.
- ...seu legítimo esposo?
- Fala sim. - sussurrou um homem alto em seu ouvido. Borboletas povoavam seu estômago. Em sua vida, Joana se esquecia de pensar no momento presente de tanto que sua mente se ocupava de achar coisas interessantes por aí, mas dessa vez não havia escapatória. Olhou em seus olhos. Para príncipe só lhe faltava a coroa. E a moto. As flores, já as tinha nas mãos.
- Sim. - a moto a gente compra depois, pensou Joana.

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