quarta-feira, 26 de maio de 2010

Daydreaming

Não sou fria. Muito pelo contrário. Sou romântica e idiota.
Mas de uns tempos pra cá tenho sido obrigada a ver tudo com mais frieza.
E estou lidando com essa obrigação como se fosse escolha minha. Uma peça que estou pregando nos meus sonhos para ver quem manda em quem.
Eles tentam me dominar todos os dias. E eu estou tentando os conter.
Como um dono passeando com seus dez cães queridos, gordinhos e babões, eu somente os consigo dominar porque não conhecem sua força. Se todos puxarem ao mesmo tempo, estou perdida.
De vez em quando perco o domínio sobre um que me invade a cabeça sem nem um "bom dia". E é tão difícil expulsá-lo que acabo o alimentando e tecendo uma história em volta dele.
Sempre achei que pensava diferente das outras pessoas. Os meus pensamentos geralmente formam retalhos de histórias com falas e gestos determinados.
Há muitos detalhes em um devaneio. E os meus têm o costume de serem completos. A quantidade de luz no ambiente é ideal, assim como as cores das paredes, as roupas, os carros passando, o tom de voz, o exato ecoar do toque da campainha. Tudo é simples, completo e lindo.
E enquanto não sou interrompida ou não crio um bom final para a história, não consigo largá-la de boa vontade. Ou então é ela que não me deixa ir embora sem um beijo de despedida. Só para deixar o gostinho para a próxima vez.
Somente os melhores devaneios voltam, porque estão ligados aos sonhos mais queridos. Os outros evaporam no momento em que eu viro o rosto e vejo um vestido colorido ou uma criança rindo.
Eu disse a verdade quando disse que sofro de excesso de sonhos.
Eu finjo meu domínio sobre eles e eles fingem que me obedecem entre uma piscadela e um cruzar de dedos.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Receitas

Numa dessas noites sem nada para fazer, que eu passo garimpando coisas interessantes, reparei uma coisa.
Todas as informações em blogs - geralmente femininos - são dadas em receitas.
Como cuidar do seu cabelo. Como enlouquecer um homem na cama. Como confiar na medida certa. Como ter cílios de boneca. Como se recuperar de um relacionamento destruído. Como fazer ele se apaixonar por você. Como estar na moda com pouco dinheiro. Até achei um como escrever bem. E, é claro, não podiam faltar os 289.354 métodos infalíveis para ser feliz.

Esses textos não tem nenhuma informação que você já não tenha ouvido ou que não saiba intuitivamente. Ou você ainda não aprendeu que confiança e auto-estima resolvem 99% dos problemas psicológicos mundiais? Você não precisa de uma receita pra descobrir isso. É intuitivo.
Para ser feliz tenho que comer chocolate? Para atrair um homem preciso ser bonita sem ser vulgar? E quem não sabe disso?
Simplesmente produziram textos que qualquer um sabe de cor e publicaram como a descoberta do ano.
Por que? Porque muitas vezes a gente tem que ouvir o que a gente já sabe. Cada receita dessa é um beliscãozinho.
Outro dia, um amigo me jogou uma verdade que ardeu no rosto quando bateu. "É. Amor é assim mesmo. Você nunca sabe por quem vai se apaixonar. Você pode ser a garota mais perfeita do Universo e não vai adiantar nada se foi por ela que ele se apaixonou." Eu sabia disso. Mas quando vem de fora é outra coisa.
Essa semana ainda, me surpreendi lendo num texto que um cara que eu gostei muito está saindo com alguém. E eu não sabia que ele saía com outras pessoas? Pensei que depois de todo esse tempo, ele estaria esperando por mim? Não. Eu achava que ele saía com pessoas. Só que ver isso acontecendo é muito diferente do que somente pensar na possibilidade.


E há também o problema óbvio das receitas. Elas desandam.
Nesses sites, vários elogios para os textos apelativos e óbvios. Todos engolindo aquilo como se fosse a mais pura verdade e visivelmente planejando seguir a risca cada tópico. Comprando essas idéias de receitas pra viver, sem nem se perguntar direito se elas vão funcionar, simplesmente assumindo que tudo correrá dentro do planejado, basta seguir as instruções.
E por que será que as pessoas acreditam em receitas para a vida?
Acredito que há uma esperança lá no fundo da gente de que se a gente fizer tudo igual, vai conseguir o mesmo resultado. Tipo matemática. Sabe aquela inércia entranhada que eu falei outro dia? É isso mesmo. Mas acontece que a gente está aplicando isso para a vida. E na vida há muitas variáveis escondidas que saltam gritando detrás do sofá enquanto você está relaxado vendo tv.

O que eu queria dizer mesmo não é que essas receitas são completamente inúteis. São interessantes, porém tem que ser usadas com cautela. Como dicas talvez, e não como receitas, porque  na receita não diz, mas sempre tem algum ingrediente mágico faltando e que você vai ter que descobrir sozinho. E pasmem! O ingrediente mágico muda!
(É por isso que ele é mágico.)
É inevitável achar que o resultado vai ser sempre o mesmo. Só temos que estar prontos para reconhecer os ingredientes mágicos quando tropeçarmos neles.
E chega de metáforas! Acabou a história.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Torta de limão - a vida é doce e amarga

Sempre gostei de escrever. Quando mais nova tinha um caderno de poesias e antes de criar esse blog eu tinha um outro, secreto, para o qual eu ainda fujo quando o texto é pessoal demais ou por algum motivo, não me sinto confortável em partilhar com o resto do mundo.
A decisão de criar um blog aberto, escrever coisas importantes nele e espalhar o link por aí foi principalmente para me forçar a não me fechar para o mundo. Sempre fui muito tímida e isso me incomodava.
Não acredito numa vida depois dessa e acho completamente inútil guardar mistérios sobre coisas importantes. E é isso que estou tentado fazer. Desvendar os mistérios que eu mesma crio.
Queria ser corajosa, mostrar meus textos para críticas. Dar a cara a tapa.
E então nasceu o blog.
O objetivo dele é ser uma partezinha de mim um pouco mais explicada para ver se alguém me entende. Então vejam que o objetivo dele não é ter o maior número de seguidores do Universo ou ser o eleito o melhor blog de todos os tempos, do ano ou de hoje. Ele é bem simples e toda a graça dele é de ser meu. Pertence a uma garota de 19 anos (falta menos de 2 meses pra 20!) que está lutando contra seus moinhos de vento e descreve eles com a grandeza que eles parecem ter daqui de baixo, do campo de batalha.

Mas hoje, recebi um comentário do tipo:
Li o primeiro texto da página. Até que é legalzinho mas eu não me importo.
Meu blog é lindo. To te esperando lá viu? naolembroonome.blogspot.com
Beijos,
Alguém caçando seguidores.

E senti a necessidade de criar algumas regras.
Lembra daquelas convenções sociais que eu falei num outro dia? Aqui elas serão escancaradas e encaradas cruamente como o que elas realmente representam.
Esse é o meu mundo, mas se eu não quisesse que vocês lêssem, eu postava no outro. No secreto. Não tenham medo de comentar. Aliás, adoro receber comentários! Comentem!
As críticas construtivas serão bem recebidas. Gosto de uma dose de verdade de vez em quando.
Agora, esse é o meu cantinho. As propagandas aqui sou eu que faço. E elas estão bem ali à direita no gadget "Sou fã". (Viu? Eu até coloquei um gadget pra isso! Não sou mal-agradecida pelas inspirações.)
Quer mais? Clica no meu perfil. Vê os blogs que eu sigo.
Propagandas de si mesmo, comentários absurdos, spam ou qualquer coisa que não me agrade será impiedosamente irrefragavelmente indubitavelmente inescrupolosamente indiscutivelmente excluído.
E tenho dito!

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Vestidos

"Mercedes: Parece sabe o que? Parece que eu peguei um vestido muito especial, um Armani, e emprestei pra uma amiga. Aí essa amiga vestiu o vestido e o vestido ficou muito mais bonito nela do que ficava em mim. Daí, ela foi pra um festão, sujou o vestido, deixou cair vinho no vestido, lambuzou o vestido, e o vestido continuou muito mais bonito nela do que ficava em mim.
Gustavo: E você? Se arrependeu de emprestar esse seu Armani pra uma amiga?
Mercedes: Não. Não me arrependi. Mas ela tem que cuidar muito bem, né! Pra merecer.
Gustavo: Senão?
Mercedes: Eu pego de volta!"

Este é um dos muitos diálogos geniais do filme Divã. E sabe quando a metáfora fica guardada para te atacar quando você precisa? - Já comentei isso aqui uma vez.
É engraçada essa sensação. De ver o seu vestido ficar mais bonito em outra pessoa.
Não, eu nunca tive um Armani. Mas tive alguns vestidos. E sinto um pouco de ciúmes de um vestido ou outro. Mas vi algumas fotos e tenho que confessar, ficou muito melhor nela do que em mim.
Deu uma pontinha de ciúmes. Mas eu sabia que ele ficava meio estranho em mim. Meio curto, sei lá. O tecido pinicava. Incomodava. E era chato de vestir. Era daqueles que você põe quando vai ficar em casa, sabe?
Mas nela... Ah, nela ficou lindo! Ela pode até ir a um festão com orgulho do vestido.
E o que eu posso fazer?
Seja feliz com o vestido que um dia me vestiu. Que ele não te pinique, que a etiqueta não machuque. Que você se sinta confortável e linda com ele. E eu sei que seus sapatos vão sempre combinar direitinho.
Mas eu tenho o direito de não querer ver você com ele né? Você não precisa ficar se exibindo. É que vai dar uma dorzinha. Uma invejazinha.
E se você não cuidar bem?
Não, eu não vou pegar de volta. Descobri vários defeitos nesse vestido que antes eu não via e ele não é, assim, um Armani.

O estranho é que pensando retrospectivamente, sei exatamente quais características uma mulher precisa ter para vestir bem cada um dos meus vestidos. E o mais estranho: eu sei que não sou a melhor modelo de nenhum deles.
Baixa auto-estima?
Não acho. Não que eu tenha a melhor auto-estima do mundo, mas ainda não encontrei meu Armani. Ou meu Chanel. Ou Louis Vuitton. Ou pode ser um bonitão da Zara. Nem sou tão exigente assim.

domingo, 9 de maio de 2010

Ah, Romeu!

Ele está ali, parado, me olhando com aquela cara de bobo. Um sorriso fixo. Acabou de virar o rosto, está tentando se policiar pra não cruzar o olhar comigo de novo, mas não consegue. Se força a olhar pra baixo. Está tentando disfarçar o quanto gosta de mim.
E eu me pergunto: Por que? Por que eu não gosto dele da mesma forma? Seria tão mais simples.
Mas não... A dificuldade faz tudo muito mais emocionante.
Quando você está com alguém, aquela pessoa nunca é suficiente, mas quando está longe e especialmente quando não pode ser sua, a paixão explode. Parece que é a maior do mundo. E quando a dificuldade acaba, acaba também a paixão.
O que seria de Romeu e Julieta se suas famílias fossem amigas? Não se importariam um com o outro provavelmente. Ou talvez o pai de Julieta dissesse que ela deve se casar com Romeu mesmo contra sua vontade e a história seria outra. Também sofrível, mas diferente.
Talvez seja essa nossa vontade de viver algo incrível que Elenita descreve tão bem num dos posts do seu blog (aqui!). Essa vontade de viver uma história difícil e importante que faz a gente querer quem não cabe no nosso mundo. Quem só pertence aos sonhos da gente. E quando a pessoa decide gostar de volta, acaba a magia. Você enxerga que o que você queria era só atravessar os obstáculos e a grama do outro lado nem é tão verde como parecia de longe. E fim.
Puro masoquismo sentimental.


sábado, 8 de maio de 2010

Do banco alto

Entrei no ônibus e depois de passar a roleta, olhei instintivamente para os bancos altos para ver se estavam ocupados. Não estavam. Pura alegria.
Sentei - do lado da janela, lógico! - e fiquei pensando se atitudes como essa me fazem muito infantil.
Sim, eu saltito e danço pela rua sem me importar se estão olhando.
Sim, chocolate me faz feliz. E eu como menos no almoço para poder repetir a sobremesa.
Abro a janela quando passo pelo Aterro só para ter aquele vento forte batendo no rosto, que nem aqueles cachorros babões.
Amo abraços.
Adoro correr, brincar de pique-pega, pique-esconde, andar de bicicleta, desenhos animados, quadrinhos e brinquedos em geral - tenho uma certa fascinação por Lego.
Pensei que, se ouvisse alguém falando isso, "maduro" não seria o primeiro adjetivo que me viria à cabeça.
Mas perder essas coisas está tão relacionado assim com ganho de maturidade?
Na hora lembrei de um trecho de Oswaldo Montenegro. Parecia que estava esperando silenciosamente no fundo da minha memória para atacar na hora certa.
"Quantos defeitos sanados com o tempo eram o melhor que havia em você?"
Sabe, gosto dessa minha criancice.
Reclamem das minhas reações infantis a discussões. - Sou avessa a discussões. Acho que não levam a nada. Às vezes evito tanto o confronto que acabo sendo rude ou teimosa.
Podem dizer que eu não sei lidar com relacionamentos de casal. É verdade. Não sei mesmo. Só faço merda. Me aproximo de quem não quero e afasto quem quero perto.
Pessoas que gosto de verdade me deixam nervosa e acabo falando besteiras. Infantil? Ok.
Teimosa, romântica, sonhadora, orgulhosa.
Sou infantil por causa disso? Tudo bem. Eu entendo isso.
Mas nunca vou entender as tentativas de julgar minha maturidade por levar a vida na brincadeira.
Talvez eu seja muito menina mesmo. Mas quem sabe essa não é uma fase de vida inteira?
Se até hoje não perdi a alegria de dançar pelas ruas, por que, ó céus, perderia ela agora? Ou daqui há alguns anos?
Se essas coisas acabarem sendo só parte de uma fase passageira mesmo, será uma pena. Perder o que mais me dá alegria.
Mas por enquanto estou bem tranqüila, vendo tudo um pouco mais de cima. Do banco alto.

terça-feira, 4 de maio de 2010

"Life is what happens to you while you're busy making other plans"

Estava em dúvida se postava esse texto ou não, porque é meio clichê. Todo mundo já leu um texto desse na vida. Ou ouviu uma música. (Que tal "O tempo não pára"?)
Resolvi postar porque está refletindo o meu presente. Mas vai baixando essas expectativas.


Tudo começa com a escolha. Você tem que escolher um caminho para continuar a vida, mas não consegue decidir por qual seguir, porque obviamente você não sabe o futuro, e daí você fica tentando enxergar as conseqüências, mas é tudo muito nebuloso. Há muitas outras variáveis envolvidas. Mas deixar de decidir também é uma decisão - foi o que disse minha psicóloga. - A vida não vai te esperar analisar todas as possibilidades e, finalmente, coroar a vencedora.
A vida passa muito rápido e quando você olha para trás, resolve que mudaria tudo. Todas as pequenas escolhas. Você lembra daquela risada que você prendeu para não constranger a outra pessoa no elevador e deseja ter gargalhado alto. Porque era isso o que você queria fazer. Mas não fez. E todas aquelas vezes que você engoliu aquele pão light com requeijão light no café da manhã. Sem graça e sem gosto. Assim como o resto do dia.
E você pensa: não pode estar tudo errado! Eu fiz escolhas certas... - Nessa hora saiba que você perdeu o dia. Talvez durante a manhã você consiga pensar em outras coisas, mas à tarde e à noite serão nostálgicas e contra-produtivas.
Sim, você fez escolhas boas. Várias lembranças boas vêm à mente. Amigos, sempre tão companheiros. Momentos engraçados. Trocas de confidências. Você amou algumas pessoas. Teve momentos bons com elas. Momentos nos quais você poderia ter passado uma vida inteira. Você ama sua família. Apesar de não ser perfeita. Nenhuma família é perfeita - mas você ainda não entendeu isso. E talvez você nunca entenda.
E você começa a pensar em momentos de alegria e você se apega tanto a eles que dá uma vontade enorme de voltar porque você não aproveitou direito. Você retira as manchas e faz seu passado perfeito. E, depois de limpo, ele parece muito melhor e mais feliz do que o seu presente.
E aí está a sua vida num relicário. Distante e bela. E limpa.
E quando toca uma música um pouco mais triste você abaixa a cabeça e se tortura com o fato de que não pode voltar no tempo.
E agora, José?
Do que adianta isso? Você ainda tem tanta vida pela frente. Já percebeu o mar de oportunidades se estendendo aos seus pés? Não, você estava muito ocupado lamentando.
Seu passado dá saudade? Então tenha orgulho dele. Mas não o suficiente para querer viver nele.
O passado está aí para nos ensinar, mas o que importa mesmo é o presente e o futuro, porque é sobre eles que a gente tem controle. Viva.


Eu avisei que era lugar-comum.

domingo, 2 de maio de 2010

Convenções sociais

Nunca fui muito boa em relacionamentos de casal. Acho que no fundo não tenho muita vocação e por isso acho muito graça de algumas coisas idiotas.
Tipo quando o cara liga "só para cumprir contrato". Saí com um cara nesse final de semana que me ligou e disse: "Sabe o que é? É que eu te liguei porque tava com vontade de ir ao cinema. Sei lá." Senti que um silêncio constrangedor ía começar se eu não respondesse logo, mas só me vinham respostas mal-criadas na cabeça: "Ah que legal! Me liga quando você tiver vontade de ir ao banheiro também! Adoro saber das vontades alheias. É um fetiche meu." Ou então: "Ah, é? Chama a sua mãe! Acho lindo programas em família. Vai ver um filme nacional! Aproveita e incentiva a cultura do país! Dou a maior força!"
Acabei respondendo uma meia-verdade. Ele não questionou e foi gentil o suficiente para esconder o alívio. No fundo nem eu nem ele queríamos sair juntos.
Acho muito estranhas essas convenções sociais. Principalmente porque elas são proibidas de serem comentadas com a pessoa. Eu seria a louca se falasse que simplesmente não queria ir ao cinema com ele e que, vamos ser sinceros, ele também não queria sair comigo. Ele não assumiria nunca, ficaria quieto e se protegeria com o fato de que foi ele que me ligou e eu que recusei.
Mas se ele não tivesse me ligado... Ah! Daí ele seria o idiota! Porque ele tinha que ligar. Mesmo se ele não quisesse realmente sair comigo naquele dia. Só para manter a convenção.
E o pior é que é verdade.
E se ele pedir meu orkut, seguindo a convenção, vou ter que apagar esse post.