sábado, 27 de fevereiro de 2010

"Two drifters, off to see the world, there's such a lot of world to see."

   - Não te assusta?
   - O quê?
   - O tamanho deste céu. As estrelas. E a Lua lá em cima.
   Pensou que a pergunta era tola e sua boca já estava formando um "não" quando olhou de novo para cima. Uma imensidão que parecia poder ser tocada. O brilho de muitas estrelas que podiam não existir mais. E a Lua. Cheia. No auge de sua beleza.
   O céu negro parecia poder engolir qualquer luz, mas mesmo assim, as estrelas e a lua continuavam brilhando, alheias àquela escuridão monstruosa.
   Já passava das 3 e, mesmo o dia tendo sido muito quente, soprou uma brisa fria que fez Jorge se encolher. Ele era tão pequeno. Tão frágil perto daquilo tudo.
   Tão efêmero! Sua vida acabaria antes de ter aprendido o nome de todas as estrelas daquele céu. E elas continuariam lá mesmo após sua morte e talvez até após a morte de gerações depois dele.
   Guerras passariam por ali, a paz seria declarada e festejada, debaixo do mesmo céu.
   Amantes fariam suas promessas de amor mergulhados no romantismo que a noite traz.
   E também chorariam suas perdas quando o fim fosse inegável, sentindo o peso a mais que a escuridão dá ao sofrimento.
   Seus olhos acompanharam a cortina negra que se estendia do horizonte, detrás da pequena casa, envolvendo os campos de trigo em que estavam deitados até o outro lado, onde já não se via nada porque não havia luzes. A imensidão completamente indiferente ao que acontece abaixo. Impossível não sentir solidão. Difícil não pensar no futuro. E na imprevisibilidade do futuro. Ainda veria muitas vezes aquele céu? Teria filhos? Teria amores? Dores? Viveria o suficiente para ver realizados seus sonhos mais importantes? Seria lembrado após sua morte?
   Silêncio. Um silêncio tão profundo que invadia sua alma. O céu, impassível a seus devaneios, se recusava a lhe reconfortar. Parecia lhe dizer, como um pai desatento e rude, que não há respostas.
   Seus olhos se voltaram para a Lua. Cheia como nas histórias de lobisomens.
   - Um pouco. - respondeu Jorge, com um leve tremor na voz.

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