quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Curvas

Era uma vez um planeta exatamente cúbico. Ele tinha uma órbita retangular ao redor de uma estrela também cúbica e comportava quase 7 bilhões de pequeninos habitantes poligonais, deslizando por seus planos, se equilibrando em suas arestas.
Nesse planeta as curvas não tinham vez. Os poucos seres que nasciam mais arredondados eram olhados com desprezo.
Mas, em uma casa pintada de xadrez, com chão de azulejos, nasceu uma menina redonda. Perfeitamente redonda.
Foi uma tragédia na família. O pai recusou a menina dizendo que a filha não era dele e separou-se da esposa. A mãe teve pena da criança, que em nada tinha culpa por nascer diferente, e criou-a como se criava uma criança paralelepípidica.
Mas a criança fazia perguntas demais. Não entendia como podia ser tudo tão linear. Enxergava mil outras maneiras mais fáceis de resolver os mesmo problemas e não concebia que todos tivessem opiniões tão... quadradas! (Você também pensaria assim se visse o mundo por coordenadas polares.)
Seu raciocínio nunca era direto. Sua lógica espiralava em torno das circunstâncias, chegando aos resultados mais improváveis.
Por isso mesmo entendia mais da vida.
Quando nova, se sentia excluída por ser diferente. Cresceu e viu que não sabia viver de outra forma. Não saberia ser linear e viu que nascer redonda fez com que tudo para ela fosse mais simples.
Resolveu que obrigaria seu planeta a ter curvas e viveu a esbarrar nos trapézios obesos, nos paralelepípedos baixinhos e fortões ou compridos e magrelos, também nos cubos tão antiquados, e em todas as formas pontudas, retirando pedacinhos e arredondando a vida no planeta.
Mas aos poucos ela mesma perdia pedacinhos e ganhava pontas.
Apesar disso, ela viveu bem e por muito tempo e foi muito feliz enquanto duraram suas curvas.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

O que é novo

Eu quero um tênis novo que seja branco, mas daquele branco que só o que é novo tem.
Quero novas matérias na faculdade que sejam interessantes e, principalmente, sejam dadas por bons professores.
Quero aprendizados novos.
Quero pessoas novas. E antigas também.
Quero esperanças renovadas para perseguir objetivos antigos.
E também quero metas novas.
Caminhos novos.
Por que não? Países novos!
Línguas novas!
Gestos novos...
Mas não quero nada que seja indireto!
Torço para que flechas no peito, tapas na cara e amores escancarados substituam tudo o que tem a terrível mania de se esconder.
Não quero tranqüilidade. Sou muito nova pra isso.
Quero movimento. Agitação.
Calor.
Quero verdades novas. Brilhando de novas.
Quero ouvir vozes desconhecidas e sotaques esquisitos.
Quero imitar os sotaques e fazer alguém rir.
Quero fazer muita gente rir.
Quero um mosaico de sorrisos bonitos.
Também quero um chão novo. Um teto novo. E paredes novas para combinar. Mas talvez em um outro tempo. Não adianta criar tantas expectativas agora.
Mas eu ainda quero expectativas novas para poder superar.
Quero crescer. Expandir meus horizontes.
Longe de mim querer tudo branco. Quero muito mais do que isso. E nem me venha com Technicolor!
Quero cores estonteantemente novas!
E quero um ano novo para combinar com minha vida colorida e meus sonhos queridos, apesar de tão antigos.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Pequenas corrupções

Estava aqui pensando nas pequenas corrupções de todos os dias e com as quais estamos acostumados.
Tão acostumados que não percebemos o tamanho absurdo que elas são.
Porque a gente ouve que os políticos roubam dinheiro da saúde, da educação e a gente se revolta, mas quando é com a gente, passa a ser perdoável.
Por que roubar (ou desviar, é a mesma coisa) brinquedo(s) que seria(m) doados para crianças carentes seria menos grave do que embolsar o dinheiro revertido para educação infantil?
Me ensinaram a ser honesta quando criança e eu nunca mais esqueci.
Eu devolvo o troco a mais, devolvo a carteira achada na rua (com tudo dentro), viro o rosto quando as pessoas colocam a senha nas maquininhas de cartão, mas no fim, parece que estou sozinha...
Por que só eu fiquei surpresa com uma coisa tão absurda quanto o roubo de um brinquedo? A negação da alegria de ganhá-lo para uma criança que não tem nem ao menos roupas decentes para vestir?
Porque a corrupção já está entranhada na gente.
E a política reflete o povo que é governado.
Quer saber, a gente não tem moral para reclamar dos políticos.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Sonhadores

Ele saiu de casa achando que era dia normal
Foi andando apressado achando que podia voltar no tempo
Tropeçou nos cadarços achando que tinha pedra no caminho
Fechou os olhos achando que era sonho
Durante a queda, não se segurou achando que podia voar
Se chocou contra o chão achando que era macio
Abriu os olhos achando que era o paraíso
Aceitou a ajuda de um senhor achando que era um anjo
Sorriu achando que aquele era o próprio Deus
"Coitado! Bateu com a cabeça! Deve ter afetado o raciocínio. Você está me ouvindo?" 
Olhou pra baixo achando que ninguém entenderia
Como é difícil a vida dos sonhadores!

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Seria doce meu lar

De vez em quando a gente esbarra com as letras de músicas que a gente sempre ouviu e nunca prestou atenção, e surpreendem a gente com tanto sentido. Tipo essa daqui, sobre desapego.


quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Brincando de escrever

Criei uma brincadeira. E divirto-me com ela.
Hoje tive outra entrevista e outra redação.
Dessa vez, a história foi sobre Paula, uma menininha que nasceu para mudar o mundo, mudar as vidas alheias. Ficou fofo o texto. Uma menina que poderia muito bem ser filha do Paulo do outro texto, nascida na República Tcheca. Sem querer, criei uma família.
Estava sozinha em uma saleta mal iluminada com a folha e a caneta na mão quando me dei conta da brincadeira que se construiu sozinha, e não pude deixar de rir.
Sempre que precisar escrever um texto, entrelaçarei de algum jeito com os outros, já escritos e devidamente guardados em arquivos de recursos humanos.
Me sinto distribuindo peças de um quebra-cabeça.
Fantasiei um poeta-detetive recolhendo os textos como se fossem pistas. Montando e desmontando as histórias.
Fantasias são fantasias, não tem nenhuma obrigação de virar realidade.
Mas o melhor dessa brincadeira é que traz poesia (e diversão) às entrevistas de emprego.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Extra Natal

Hoje tive uma entrevista para trabalhar no Natal. A terceira entrevista da mesma empresa.
Me deram uma folha com perguntas e tentei respondê-las o mais francamente possível.
Mas daí veio o "O que você faz para lidar com seus defeitos? Cite alguns." e deu um nó em mim. Quais defeitos interessariam ao emprego? Porque com certeza eles não estão nem aí para a minha dificuldade em relacionamentos ou com o mistério das notas altas nas matérias difíceis e baixas nas fáceis. Acabei respondendo que sou tímida em certas ocasiões e que sou muito transparente. Não consigo esconder quando não gosto de alguma coisa. Isso é um problema para uma vendedora. Nem todas as roupas são bonitas.
E quando eu achava que estava terminando, a moça vem com uma folha em branco em punho dizendo que tenho que escrever uma redação de tema livre.
Ai. E agora? Será que eles têm contratados aqueles especialistas em descobrir toda a personalidade da pessoa pelo jeito que ela escreve? E se eles mandarem a minha redação para uma psicóloga? Ai ai... Será que ela vai descobrir coisas sobre mim que eu ainda não sei?
E daí veio o bloqueio da folha em branco. Nas aulas de redação do colégio e até no vestibular lembro de me assombrar toda vez com a imprevisibilidade do papel vazio. Dali a menos de uma hora ele estava completamente preenchido, seja pelo melhor texto que já escrevi, ou pelo pior. Mas enquanto ele é branco o potencial é grande.
Pensei em usar um texto que já escrevi aqui no blog, mas de algum lugar me veio uma coragem e pensei que era uma oportunidade de alimentar uma idéia nova. E eis que nasceu "A Fuga", a história de Paulo que queria fugir de sua vida burocrática e acabou levando sua esposa para a República Tcheca sem data para voltar. Ficou bom o texto, queria fazer um post dele se o tivesse a mão.
Li, reli, contei e recontei as 24 linhas. Ela tinha dito por volta de 20. Ou será que era no máximo 20? Ai, ai! Será que escrevi demais?
Eis que entra a responsável pelo RH. Diferente das que já tinha contato em outras empresas. Simpática, como todas as outras, só que mais velha. Conversa vai, conversa vem. Aquele mesmo blá, blá, blá da minha vida.
"Eu gosto de correr, ver filmes com os amigos, andar de bicicleta."
"Uhum. Eu tenho um irmão e uma irmã. Os dois mais velhos."
E depois, ela disse que eu tinha que voltar na semana seguinte para entregar os documentos e que já estava certo que eu trabalharia na empresa, era só eu querer.
Pra que o interrogatório? Pra que a redação?
Engoli a vontade de falar para ela pelo menos ler o texto.
Depois pensei, eles devem guardar isso como cartas na manga. Para analisar minha personalidade ao menor deslize. Fiquei desconfiada.
Sempre tenho um pé atrás quando as coisas são muito fáceis de conseguir.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

If you just hold on, maybe life could be sweet

Hoje, enquanto as meninas olhavam umas roupas numa loja de departamentos eu fiquei imaginando como será quando eu tiver o meu apartamento e precisar comprar vários pijamas para as garotas dormirem lá em casa sem precisar programar.
Pensei na decoração, nos móveis, nas "tatuagens" nas paredes, nos quadros de fotos, no adesivo de pinguim na geladeira, na porta colorida, nas cadeiras coloridas, em cada cor.
Pensei na privacidade, na música clássica bem alta pra me ajudar a cozinhar, no treino de francês em voz alta sem reclamações pela repetitividade, na idéia de me jogar no sofá, ficar olhando para o teto e sonhando acordada sem precisar fingir que estou lendo ou fazendo qualquer outra coisa só para não me atrapalharem.
Pensei também nas festinhas, na bagunça, na cerveja gelada, no cachorro ou gato, ou os dois, no bolo para mimar o vizinho que nem nos filmes americanos, no estoque de biscoitos e porcarias (frutas e saladinhas também para os dias mais saudáveis), em receber a Ana quando ela vier visitar, em jogar baralho com a galera e rir até a barriga doer e mesmo assim não conseguir mais parar de rir.
Pensei em quando eu explodir de orgulho deste apartamento que eu tanto sonhei e lutei para conquistar.
E quando penso no que não vai dar certo, até isso me parece tão doce.
E me dá uma vontade de voar no tempo. Ah, eu só queria dar uma espiadinha...

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

We are more than we are. We are one.

Eu só queria escrever que estou sentindo alguma coisa muito bonita que eu não sei explicar o que é.
Existem coisas bonitas no mundo.
Acreditem nisso.
Multipliquem essa beleza.
É possível.
Tantas coisas que eu simplesmente não consigo acreditar, mas nisso eu acredito.
Isso faz meus olhos encherem de repente e minha garganta dar um nó.
Existe alguma coisa inexplicavelmente linda no mundo que faz a vida valer a pena.
Eu poderia falar que é amor mas na verdade eu nem sei o que é.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Dever de casa aos amigos

Amigos,
Sabem uma coisa estranha?
Eu não costumo contar pra todo mundo o que quero fazer pra não criar expectativas. Acho que é mais por medo de não alcançar as expectativas que as pessoas criam, medo de decepcionar. Ou então querer mesmo esconder de todo mundo aquela história de político de prometer tudo e não acabar nada.
Porque eu já quis fazer tanta coisa na vida, desde tocar violão até fazer biscuit. E nada terminou.
Mas agora é diferente. Agora eu quero criar expectativas. Eu quero crescer.
E eu me conheço: infelizmente cresço muito mais sob pressão.
Então, vamos à promessa: Eu coloquei na minha cabeça que vou aprender francês. Sempre tive vontade mas me faltou a iniciativa.
Portanto, amigos, criem expectativas, perguntem, cobrem, falem para todos os seus amigos que a Su vai aprender francês. Fiquem decepcionados se eu falar que desisti. Ou se eu enrolar vocês com histórias da carochinha, me desmascarem. Briguem. Me joguem aos leões. 
Pretendo aprender sozinha a cumprir minhas promessas, mas, se eu não cumpri-las, já sabem o que fazer.
Com amor,
da Su

domingo, 17 de outubro de 2010

She loves the sunrise

Sabe, tem gente que machuca a gente e tem vezes que a gente esquece, mas estava preocupada com as outras vezes. Aquelas coisas que você trocaria feliz por um tapa na cara, a dor seria bem menor. E eu passei um tempo pensando que é impossível perdoar completamente. Sempre vai haver um ressentimento, como fumaça na frente dos olhos.
(Acho que na verdade é como um letreiro luminoso pendurado no pescoço da pessoa e de todos os amigos em comum escrito "DOR" em letras garrafais, e várias setas piscando apontando para as placas, mas isso é menos poético.)
Mas, outro dia, eu estava andando e ouvindo música e, não sei direito porque nem como, esbarrei na beleza de não odiar ninguém. Não ter ressentimentos com ninguém. E eu fiquei meio atônita. O que eu faço com essa descoberta?
Não é nenhuma grande descoberta para a humanidade. Muito antes de eu nascer o perdão já era bonito e ensinado para todos desde a infância. Mas é uma imensa descoberta pra mim.
Minha ilha fora do mapa.
E eu pensei que talvez aquelas pessoas que me fizeram tão mal não mereçam um perdão tão facilmente assim, mas muito mais do que elas, eu não mereço conviver com ressentimentos, porque eles corroem  por dentro.
Eu não quero alimentar nada que não me faça crescer.
E pronto.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Eu

Vem, senta aqui, fica à vontade. Esse é o meu quarto.
Aqui, é esse o computador que eu uso, ali, a cama que eu durmo, as almofadas espalhadas.
Não repara na bagunça não, tá. É que não deu pra arrumar, você nem falou que tava vindo.
Vem, pode entrar. Essa é a minha vida.
É feita de rotina, igualzinha a todas as outras. Tem faculdade, amigos, briga com os pais, irritação com o irmão, saudade da irmã, falta de grana. Tem tudo isso.
E tem um pouco mais. São essas as minhas melhores lembranças. Tem alguns assuntos que não gosto de falar, você entende, né? A gente passa por decepções na vida. É assim mesmo.
Só vou te pedir uma coisa. É que sou meio tímida, então entra devagarzinho pra eu não me assustar. Mas pode vir.
Vem, vamos conversar. Senta aqui do meu lado. Deixa eu sentir sua atenção em mim. Me deixa nervosa. Me tira as respostas.
Vem, não precisa ter medo que eu não vou fechar a porta. Você pode sair quando quiser. Mas não vai agora. Fica mais um pouquinho. Fala qualquer coisa me olhando nos olhos. 
Não precisa mentir, dizer que vai ser pra sempre. Eu entendo. Um dia você vai embora, mas eu vou te pedir mais uma coisinha: Quando você for, me deixa aqui. Tenho medo. Vai que a porta bate atrás da gente.
Não me leva embora de mim que eu não vou saber voltar.

domingo, 3 de outubro de 2010

Hoje não

Eu deveria estar estudando, mas não estou conseguindo me concentrar.
Pensei em colocar aqui o que estou sentindo, mas hoje é um dia particularmente nublado e é muito difícil enxergar o que está acontecendo, ainda pior organizar e descrever em palavras.
Resolvi me satisfazer escrevendo apenas a vontade de escrever tudo. Todas as emoções do mundo.
Não compreendo nada de nada. E, hoje, só o não-compreender me completa.

domingo, 26 de setembro de 2010

Dentro do meu travesseiro

Trilha sonora para os posts de hoje


Era uma vez, um cãozinho. Era um filhotinho de beagle (aquela raça não muito inteligente) e o dono disse que ele teria que ser sacrificado por ser mais fraco que os outros. O velhinho que cuidava dos cachorros não se conformou. Não sentia pena, apenas se recusava a jogar fora uma vida. Então soltou o bichinho.
Era uma vez, um cãozinho livre. Alegre e brincalhão, ele corria de uma lado para o outro. Mas o velhinho que cuidava dele não pode impedir que o cãozinho descobrisse que era doente.
Era uma vez, um cãozinho que achava que seu coração batia diferente dos outros. Seus olhos vazios denunciavam, era desespero puro em forma de cãozinho. Até que se recostou num peito humano e chorou de emoção por descobrir que todos os corações batiam igual. Não estava doente. E era livre.
Era várias vezes, um cãozinho feliz.

Nublado

Acontece o tempo todo mas só presto atenção quando os dias ficam feios e dá preguiça de arrumar a cama e as roupas jogadas em cima da poltrona, e tudo dentro mim faz questão de entrar em sintonia com a bagunça do quarto.
Bate uma saudade de uma época em que não vivi e sinto falta de nem sei direito o que. Vida amorosa, financeira, acadêmica, tudo vira uma bagunça sem tamanho. E agora?
Estou perdida dentro de mim.
Só me resta esperar o sol voltar e com ele meu caminho para continuar.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

"Provar pra todo mundo que eu não precisava provar nada pra ninguém"

De vez em quando dá uma vontade de apagar tudo que se pode apagar da internet.
Orkut, Facebook, Msn, Blog, Fotos, E-mails.
Só porque parece que todas essas coisas são tentativas de afirmar quem sou, o que faço e como é minha vida para todos a minha volta. E eu não preciso provar nada pra ninguém.

E então penso, vou apagar para provar o que? E pra quem?

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

"A tua ausência fazendo silêncio em todo lugar"

Hoje foi uma das poucas vezes que sonhei com ele. Prefiro não citar nomes, então quando eu me referir a "ele" neste texto, será sempre a mesma pessoa.
Como das outras vezes, foi um sonho perturbador e pouco romântico, exatamente como é na vida real. No sonho tive inúmeras oportunidades de falar que gostava dele, mas preferi não fazê-lo. Ele me tratava ao mesmo tempo com carinho e desapego. E no fim, ele havia ido embora, e eu corria desesperada para lhe dar um abraço de despedida. Tudo o que eu queria era um abraço, mas não conseguia chegar até ele. Não conseguia sair da minha casa. As portas estavam trancadas e quebravam na minha mão. Eu sabia que tudo entre a gente tinha acabado - acho que é essa a principal diferença entre o sonho e a minha vida. - mas queria me despedir direito. Exatamente antes de acordar, estava no elevador brigando, triste, do lado de fora da casa e sem conseguir trancar a porta para os ladrões não entrarem, sabendo que não havia mais chances de alcançá-lo, sentindo enjôo por saber - como se descobre de repente nos sonhos - que ele estava indo embora acompanhado.
Isso tudo porque eu queria lhe dar um abraço.




Apesar da minha pouca experiência em relacionamentos, sempre fui uma boa ouvinte, então muito do que sei sobre amor e relacionamentos é proveniente das experiências alheias.
Obviamente o amor é diferente para homens e mulheres, e com tudo o que ouvi e vivi, criei uma teoria, desenvolvida de uma grande, imensa, monstruosa, generalização.
Mulheres são todas feitas para doação. Da ponta do cabelo ao dedão do pé. Precisamos de alguém que receba todo amor, carinho e atenção que temos para dar e ficamos felizes quando fazemos os outros felizes, mas exigimos que o foco esteja em nós, já que somos nós que doamos tudo que temos.
E os homens precisam desse amor e carinho. São feitos para receber e dominar. É claro que eles amam de volta, mas o amor é diferente, é envolto em músicas com letras românticas, recheado de conforto, proteção, sexo e ciúmes.
Às vezes eu penso que essa dificuldade para relacionamentos  vêm da minha vontade de achar alguém que saiba receber todo esse amor, mas a impressão que tenho é que nem se todo o universo resolvesse receber e absorver meu amor, seria suficiente para não me fazer explodir de amor.
Não é só o excesso de sonhos. Sofro também de excesso de amor.

domingo, 5 de setembro de 2010

Fica a poeira se escondendo pelos cantos

Esbarrei na letra de Teatro dos Vampiros agora e me toquei que toda vez que quero escrever alguma coisa, procuro antes alguma música que já tenha a mensagem pronta, seja para procurar inspiração ou mesmo fazer diferente. Elas falam o que a gente tem tanta dificuldade de colocar no papel.
Engraçado pensar que tanta gente já sentiu o que parece que só eu no universo sinto.

sábado, 4 de setembro de 2010

Segredos e surpresas

Me senti naquele brinquedo de encaixar de bebês. Eu tinha certeza que o cubo cabia no círculo, e fiquei ali forçando, tentando encaixar. Eu e minhas metáforas idiotas.
Estava pensando em expectativas e surpresas.
Às vezes criamos expectativas em cima de ilusões e nos decepcionamos. E, às vezes, - e eu estou com problemas em lidar com isso - criamos expectativas em cima de fatos, palavras, olhares, e, de uma hora para outra, tudo muda. Porque você estava vendo tudo diferente. Porque você estava tentando encaixar o cubo no círculo.
Não é com tristeza que digo isso. Nem raiva. Mas com um espanto que não cabe em mim.
Usando mais uma metáfora horrível, é tipo um poodle cão de guarda. Quando você vê um poodle você cria uma expectativa. Quando você pensa em um cão de guarda você cria outra completamente diferente. A junção das duas é no mínimo estranha.
Sério, essas coisas me assustam.
Pessoas me assustam.

sábado, 21 de agosto de 2010

A casa fica bem melhor assim

Para ouvir enquanto lê.
Hoje arrumei meu quarto. Mas não foi como sempre faço que pego os papéis da faculdade, organizo por matéria e enfio todo o resto em gavetas já afogadas de inutilidades.
Hoje eu fui mais fundo. Juntei toda minha coragem e limpei o que eu guardava com tanto carinho, o que eu não deixava ninguém mexer. Lembrei de tanta coisa. Joguei tanta coisa fora. Espanei meus sonhos e só guardei o que ainda prestava.
Sentei no chão, coloquei pra tocar a discografia do Jack Johnson e me cerquei de lembranças. Todas ao alcance da mão. Enquanto as encarava, tocava "Losing Hope" e eu pensava em como tudo podia ter sido tão diferente. Mas não foi.
Engraçado como parece que a gente não tem controle nenhum sobre as nossas vidas. Porque eu passei um bom tempo brincando com aquela história de adolescente de que sou dona de mim mesma, que posso tudo que eu me permitir e que ninguém tem o poder de me impedir porque a vida é só minha. Até encarar que a vida é um grande jogo de azar, a gente estuda o jogo, descobre táticas, mas na verdade nossa responsabilidade é escolher os números e esperar que sejam os sorteados.
Amor, felicidade, sorte, são móbiles de berço. São lindos mas estão sempre longe e a gente não consegue saber porque. E a graça é aproveitar o pouco tempo que temos aqui apesar de tudo. Aproveitar mesmo se tudo der errado. E é tão bonito isso. Como a gente não se assombra com a beleza disso todos os dias? Porque a gente realmente devia. A gente devia fazer o máximo para todos os dias valerem a pena. Devíamos usar tudo o que podemos para mudar nossas vidas. Escolher todos os números, entende? Participar de todos os sorteios.
A gente têm tanto medo de errar que acaba nem tentando. A gente devia lembrar que o tempo é curto. Sempre.
Porque senão vai ter um dia em que você vai sentar no chão do quarto, lembrar de tudo e desejar ter feito diferente. E não vai adiantar nada.
Hoje limpei o quarto, as lembranças, os sonhos, a vida. Joguei fora o que não queria lembrar. Arrependimentos, histórias, presentes,  expectativas, tudo foi pro lixo, separados em saquinhos de plástico.
Estou mais leve agora. Estou bem.
Organizei as fotos que mais gosto em dois murais grandes pendurados nas paredes. É bom ver os rostos de quem gosto o tempo todo. Me foquei nas boas lembranças.
Que todo o resto vá embora. O que realmente importa não preciso de coisas para lembrar.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Fica a dica

No desespero do marasmo, qualquer mudança é recebida com abraços de boas-vindas.


Inclusive atualizações no Twitter.

domingo, 8 de agosto de 2010

Que Será Será

"O que é que me tortura?... Se até a tua face calma
Só me enche de tédios e de ópios de ócios medonhos...
Não sei... Eu sou um doido que estranha a sua própria alma...
Eu fui amado em efígie num país para além dos sonhos..."
Fernando Pessoa

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domingo, 1 de agosto de 2010

Virei fã

Não sei em que estava pensando, mas estava bem longe quando apareceu um par de olhos verdes há um palmo do meu nariz, pedindo se eu posso cantar mais alto.
Claro, baby. Pedindo assim, com jeitinho, eu até me permito acordar rouca amanhã. Só não espere afinação.
Do que eu estou falando? Disso daqui, ó.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Por que eu achei isso a minha cara?



Tóim tóim tóim tóim!
Adorei!

Ponto de vista

   - Não tem nenhum lugar mais bonito e ponto. Não discute comigo. Aqui tem sol, tem praia, tem gente bonita, tem árvores.
 Ele riu. - Pára de ser teimosa. A intenção não é discutir com você. Não estou tentando eleger a maior maravilha do mundo. Só estou falando que existem lugares mais bonitos que o Rio. Você não sabe porque nunca saiu daqui. Esse é o seu mundo. Mas tem muito mundo lá fora.
  - Eu fui na Disney!
  Ele soltou uma gargalhada bem alta que deixou ela sem-graça. - É. Você me falou que foi na Disney. Lá é bonito sim.
  - Não é mais bonito que o Rio.
  - Não é com a Disney que eu estou comparando. Você é teimosa, hein! Você nunca foi na Europa. Você não sabe como lá a gente se sente dentro de uma história. Você falou que compartilhava comigo aquela sensação de estar sendo escrito. De ser personagem. Lá é o cenário perfeito. Pode me chamar de maluco, mas andando por lá, toda vez que eu deixava minha mente vagar sozinha, criava uma narração na minha cabeça. Às vezes até mudava o jeito de andar pra acompanhar a narração e só percebia quando as pessoas começavam a olhar.
  - Maluquinho! Mas eu também não seria feliz se fosse normal. Sabe, eu amo esse lugar, amo tudo o que ele me lembra e é por isso que aqui é tão bonito pra mim. Talvez quando eu visitar esses lugares eu descubra que eles são realmente muito mais bonitos, mas existe uma outra possibilidade, e você pode dizer que ela é bem tiny little bit mas existe, talvez eu visite todos esses lugares lindos e tal e ache que eles são maravilhosos mesmo, mas não é o lugar que eu nasci, eu nunca pulei por aquelas ruas, não andava nas beiradas dos canteiros, não posso falar "A escola que eu estudei é ali naquela quadra, olha!". Cada cantinho daqui do Rio tem uma história. Ou várias. O Rio é uma parte de mim. Ipanema parece que me abraça sempre que eu volto de viagem. E eu amo isso aqui. O Rio é sim o lugar mais bonito do mundo e eu já falei pra você não discutir comigo!

segunda-feira, 26 de julho de 2010

É. Eu sei. TPM.

Me diz que passou e que não vai voltar. Me diz que eu mudei, cresci, apesar de parecer pra mim que continuo a mesma criança idiota. Acompanha o meu desespero, enxuga minhas lágrimas e me fala que eu estou conseguindo fazer o meu caminho. Que eu não estou enxergando as conquistas, mas elas estão ali esperando que eu as descubra. Eu vou falar "Mas onde? Eu não vejo!", mas você vai ter que ler isso nos meus lábios, porque nesses momentos a voz some.
E eu sei que isso é exatamente o oposto daquela conversinha leve, conformada com o sofrimento, do último post, mas eu sou contraditória. E você tem que me abraçar e falar que eu sou especial exatamente por mostrar isso, porque todo mundo é, mas esconde.
Me abraça porque hoje nem chocolate foi suficiente pra me deixar feliz.
Mas traz outra blusa porque eu vou molhar a que você está vestindo.
Engraçado que saber que é TPM não diminui o poder que ela tem sobre mim.

domingo, 25 de julho de 2010

De amor e chocolate

  - Mas você ainda tá nessa? Poxa. Fico triste de ouvir. Passou tanto tempo! Você saiu com vários caras desde que ele sumiu da sua vida. Vai me dizer que nenhum te fez esquecer ele? Ai, sai dessa! Ele não te merece! Ah, você merece um cara bonitão, forte, inteligente, que consiga acompanhar teu pensamento, que apóie os teus milhões de sonhos. Você é uma garota tão bonita, inteligente, não pode ficar sofrendo assim por um cara que não tá nem aí pra você. Você mesma não tinha falado que isso não ía dar certo? Que talvez nem valesse a pena tentar?
   - Suspiro. -
  - Acontece que eu gosto muito dele. Muito mesmo. Não. Você não entendeu. Muuuito meeesmo! - risos - E eu sei que vou gostar não importa o que aconteça, não importa quantas pessoas passem na minha vida. Você falou de tempo. Realmente, passou muito tempo, mas não importa quanto tempo passe. E também não importa que ele não seja o cara mais bonito do mundo, nem o mais romântico, nem o mais simpático. Se eu sou mesmo tudo isso que você falou, não é um cara bonitão, espertão que eu mereço. É divertido na primeira semana, mas se o amor não acontece, perde a graça. Eu mereço o cara por quem eu caio de amores. Mereço que ele goste de mim de volta. E é só isso que eu queria. É. Realmente. Talvez não dê certo e talvez nem valha a pena tentar. Mas mesmo assim é gostoso saber que existe uma possibilidade de um amor meio "Romeu e Julieta" guardado num canto, esperando por mim. Tá bom! Tá bom! Eu sei que ele não está esperando por mim. Eu não tava falando dele. Quer dizer, não nessa frase. Eu tava falando de um amor que talvez nem ele saiba que pode surgir. Uma sintonia entre a gente que, pelo jeito, só eu percebi. É disso que eu to falando. Não me interrompe! Grrr! - risos - Você vai falar que eu não posso viver um grande amor sozinha, que eu to me fechando pro resto do mundo. É, eu sabia que você ía falar isso, mas eu não to fechada pro amor. Ele será bem-vindo toda vez que vier me visitar. Só que daqui, deste mundinho em que vivo hoje, parece que nunca mais vou gostar de alguém assim do jeito que gosto dele. Pode ser besteira, infantilidade e tal, mas é o que parece pra mim. E pensando assim, parece que, mesmo contra todas as evidências, essa é a relação que mais valeria a pena, porque é com o cara que eu gosto mais. A coisa tá feia né. Preciso de chocolate. Urgente! - risos - O cupido me esqueceu, mas ele ainda pode brincar comigo, e eu desafio o cupido a acertar bem no centro do alvo, só pra ver se consegue me dobrar ainda mais. Ah, eu cansei de falar de amor. Coisa complicada de falar! Vamos mudar de assunto? Vamos falar de chocolate!

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Perda de tempo?

Às vezes bate uma saudade daquela voz que já não se ouve há um tempo, das brincadeiras bobas, do friozinho na barriga.
Mas eu me faço de forte. Finjo que esqueci.
E acabo assoviando aquela música que lembra a gente, e vêm na memória o tom certinho que ele usa para cantar cada trecho.
Fico repetindo algumas partes na memória. Editando a meu gosto. Imaginando as expressões que ele faz cantando.
E daí eu vejo que fui longe demais com as lembranças e volto para o meu mundo onde não há espaço para saudade.
Ainda tento me convencer de que vivo no presente.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

"Good morning heartache. Here we go again." ou Quase poesia


Essa minha indecisão é quase dor. É quase paixão.
É indecisa em si mesma.


Paixão é certeza de estar perdido e o que sinto nada tem a ver com certezas.
Não é paixão, mas consome igual, precisa de carinho igual.


Dor que é dor não se esquece com a rotina. Mas a minha indecisão foge de vista sempre que pode. Se esconde e pára de doer até eu esbarrar nela de novo.


E então me invadem. Quase dor e quase paixão.
Porque já foi paixão, e quando a paixão passou, veio a dor, e para a minha surpresa, passou também. Hoje é indecisão.


É quase. Não falta muito para ser paixão completa e dor lancinante.
Mas ainda não é. O que me dá ainda um pouco de esperança de que retroceda e volte a ser lembrança. Memória doce de pés fora do chão, com aquela saudade boa, aquele calor que começa invadindo o peito até queimar as pontas das orelhas. E vem um sorriso envergonhado que se instala sem pedir licença.


Sou criança ainda, e crianças não vivem grandes paixões. Porque só vivem amores de criança. Deve ser delírio. Ou indecisão.
Um quase sonho, ou um quase conto-de-fadas.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Pequeno tropeço

Chega um dia em que você cansa de sofrer. É aquele cansaço de sobreviver que eu falei em outro tempo.
Você percebe que o dia está chegando porque a cabeça fica mais difícil de levantar. Você precisa de uma força bem maior do que o normal para continuar a rotina.
É uma gota a mais. Mais uma coisinha que dá errado, e você diz: Não, destino! Chega! Já tá difícil o suficiente!
E pela falta de resposta, você se descobre falando sozinho.
Parece abismo, mas é mais como um meio-fio. Passar de um lado para o outro é bem fácil e, para a sua surpresa, você sobrevive. Mas do outro lado, tudo é mar calmo.
Aquele "não sei" cheio de adrenalina frente a uma decisão, querendo escolher o melhor, vira um "tanto faz" desacreditado de que vá fazer qualquer diferença. E a escolha sai até mais fácil.
Mais uma ou mil coisas dando errado, tanto faz. Já passou o limite.
A indiferença te destrói aos poucos e por dentro. As reações ficam anestesiadas.
Te perguntam: Tá tudo bem? Você tá estranha. Tá com dor?
Você muda de assunto. Não tá tudo bem. Tá doendo. Mas o que se há de fazer? Preocupar os outros com meus altos e baixos? Não é essa a intenção.
Me falam que sou apressada. Que devia ter mais paciência.
E eu pergunto: Mais? Mais do que eu já tenho?
Estou esperando pacientemente, mas é que sou desastrada e tropecei no meio-fio.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

No mundo da Lua

Joana mantinha os olhos grudados no azul do céu. Que será que aquelas nuvens tanto escondiam? Pensava em anjinhos voando lá no alto enquanto era puxada pelo braço pela sua mãe que de vez em quando lhe dava um puxão mais forte, seguido de um "Olha pra frente, garota!", mas o céu era misterioso demais para que ela pudesse prestar atenção em outra coisa.
Ouvia de sua mãe que Deus morava no céu. Se esforçava, mas não conseguia ver nada em que ele pudesse morar. E Deus não podia morar numa nuvem. Isso é coisa de anjo, que se faz de transparente quando a gente olha mais atento. "A casa dele deve ser bem escondida! Não aparece nem nos dias de céu claro!"
E é difícil pensar em céu sem pensar em inferno. Olhou pra frente tentando expulsar o pensamento. A imagem que dominava sua mente era um lugar vermelho, recheado de gritos, com alguém rindo no fundo. "Tadinhos. Os que moram lá nunca devem ganhar sobremesa."


Enquanto fingia interesse nas fofocas do colégio que sua amiga contava animadamente, Joana pensava no que seria de seu futuro. Queria encontrar um daqueles príncipes lindos de países pequenos e distantes que aparecem nos contos de fadas. Não precisava do cavalo branco, mas a moto era indispensável. E as flores que ele traria quando fosse encontrá-la.


"Isso cai na prova!" Bradou o professor do alto de seu 1,95m. Joana acompanhava seu andar com o olhar. Ele era tão magro e tão alto que, quando passava uma brisa um pouco mais forte, dava medo de que se partisse. Joana imaginou a porta da sala se abrindo e um sopro de vento levando-o janela afora no meio de uma de sua explicações entediantes sobre briófitas.


Seu chefe discutia algo que claramente era importante para ele. Joana respondia com acenos de cabeça. Sabia que devia prestar atenção, mas o chefe estava usando uma blusa com estampa de onça e uma gravata de zebra. Com certeza pôs ambos juntos com a intenção de combinar. Deve ter saído de casa pensando: Hoje o tema é selva! "Ele deve ser competente. Não é possível que alguém que se vista assim chegue a um cargo de chefia sem ter algo que compense..."
- O que você acha, Joana?
Joana abriu bem os olhos sem ter o que responder. Não fazia idéia do assunto da conversa. Abaixou a cabeça e disse baixinho "Ah, eu acho que concordo."


As pessoas estavam tão bem vestidas! Cabelos arrumados, maquiagem impecável. Havia flores por todos os lados e o perfume das rosas que invadia o salão disputava espaço com os perfumes femininos e masculinos tão exóticos que dominavam o ar.
Todos sorriam. Era tão bonito.
- ...seu legítimo esposo?
- Fala sim. - sussurrou um homem alto em seu ouvido. Borboletas povoavam seu estômago. Em sua vida, Joana se esquecia de pensar no momento presente de tanto que sua mente se ocupava de achar coisas interessantes por aí, mas dessa vez não havia escapatória. Olhou em seus olhos. Para príncipe só lhe faltava a coroa. E a moto. As flores, já as tinha nas mãos.
- Sim. - a moto a gente compra depois, pensou Joana.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Ôôô tia!

Essa semana demos aulas de educação ambiental para uma creche-escola. Fiquei com as turminhas do maternal 1 e 2 e aprendi muita coisa.
Descobri que o Sean repete todas as últimas palavras da professora. Com a mesma entonação.
Ainda não foi inventado um jeito de fazer o Artur obedecer.
O outro Artur nem é tão chorão assim. Ele só estava com febre. E a professora descobriu isso pelo tipo de choro dele.
É só apontar a câmera pra Luísa que ela faz uma careta.
O Gabriel gosta de voar. Mas ele é bem pesado.
A Eleonora tem os olhos mais bonitos.
O rosto da Bia é o mais redondinho.
A Marina é possessiva.
A Duda é apegada a todas as coisas materiais. Inclusive lixo.
A Mariah responde a todas as perguntas.
O George é bebê demais pra interagir com a gente. Ele só faz sim ou não com a cabeça.
O Heitor sorriu no último dia. (Nossa maior conquista.)
Aprendi que dor é muito relativo. Ela passa muito rápido se você tiver alguma coisa interessante para prestar atenção.
Que choro e riso estão à mesma distância da normalidade. Essa distância muda de pessoa pra pessoa. Há quem seja mais dado às emoções, que chore e ria mais fácil. Mas também tem os durões, e eles são durões para os dois lados. Não riem, mas também não choram.
E essas crianças são muito mais do que eu esperava. Foram uma surpresa. Amor a primeira vista.
Ganhei beijos e abraços deles, brinquei, corri, levei eles pela mão, peguei no colo, fiz caretas. E essa semana, eu não posso reclamar de nada.
Ganhei o que eu mais queria.
Força.


Devia ter feito pedagogia. :)

domingo, 6 de junho de 2010

Afélio

Hoje fez sol e frio, e as pessoas não sabiam o que vestir. Andei na rua e reparei que alguns se encolhiam, visivelmente arrependidos de não estarem com roupas mais quentes e outros, como que para aproveitar o sol, seguravam displicentemente os casacos mesmo sentindo frio no vento forte que soprava.
É o inverno chegando. Hora de se esconder. Quando nus, apenas carne, osso e sentimentos, somos frágeis demais e as roupas que usamos para nos proteger do frio nos arrancam o tato.
Meus melhores sapatos são meus pés descalços. Permitem sentir o toque na pele e aguentam bem a corrida. Muito melhores que aquelas sandálias de salto.
Os dias não vão voltar, eu tentei avisar. Você vai me esquecer e não te culpo por isso.
Mas eu não esqueço o que um dia me fez feliz. Prefiro assim.
Eu te disse. Ou será que sonhei?
Tem dias em que o sol se esconde.
E tem outros em que a gente esconde o sol com nossas nuvens de brinquedo.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Daydreaming

Não sou fria. Muito pelo contrário. Sou romântica e idiota.
Mas de uns tempos pra cá tenho sido obrigada a ver tudo com mais frieza.
E estou lidando com essa obrigação como se fosse escolha minha. Uma peça que estou pregando nos meus sonhos para ver quem manda em quem.
Eles tentam me dominar todos os dias. E eu estou tentando os conter.
Como um dono passeando com seus dez cães queridos, gordinhos e babões, eu somente os consigo dominar porque não conhecem sua força. Se todos puxarem ao mesmo tempo, estou perdida.
De vez em quando perco o domínio sobre um que me invade a cabeça sem nem um "bom dia". E é tão difícil expulsá-lo que acabo o alimentando e tecendo uma história em volta dele.
Sempre achei que pensava diferente das outras pessoas. Os meus pensamentos geralmente formam retalhos de histórias com falas e gestos determinados.
Há muitos detalhes em um devaneio. E os meus têm o costume de serem completos. A quantidade de luz no ambiente é ideal, assim como as cores das paredes, as roupas, os carros passando, o tom de voz, o exato ecoar do toque da campainha. Tudo é simples, completo e lindo.
E enquanto não sou interrompida ou não crio um bom final para a história, não consigo largá-la de boa vontade. Ou então é ela que não me deixa ir embora sem um beijo de despedida. Só para deixar o gostinho para a próxima vez.
Somente os melhores devaneios voltam, porque estão ligados aos sonhos mais queridos. Os outros evaporam no momento em que eu viro o rosto e vejo um vestido colorido ou uma criança rindo.
Eu disse a verdade quando disse que sofro de excesso de sonhos.
Eu finjo meu domínio sobre eles e eles fingem que me obedecem entre uma piscadela e um cruzar de dedos.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Receitas

Numa dessas noites sem nada para fazer, que eu passo garimpando coisas interessantes, reparei uma coisa.
Todas as informações em blogs - geralmente femininos - são dadas em receitas.
Como cuidar do seu cabelo. Como enlouquecer um homem na cama. Como confiar na medida certa. Como ter cílios de boneca. Como se recuperar de um relacionamento destruído. Como fazer ele se apaixonar por você. Como estar na moda com pouco dinheiro. Até achei um como escrever bem. E, é claro, não podiam faltar os 289.354 métodos infalíveis para ser feliz.

Esses textos não tem nenhuma informação que você já não tenha ouvido ou que não saiba intuitivamente. Ou você ainda não aprendeu que confiança e auto-estima resolvem 99% dos problemas psicológicos mundiais? Você não precisa de uma receita pra descobrir isso. É intuitivo.
Para ser feliz tenho que comer chocolate? Para atrair um homem preciso ser bonita sem ser vulgar? E quem não sabe disso?
Simplesmente produziram textos que qualquer um sabe de cor e publicaram como a descoberta do ano.
Por que? Porque muitas vezes a gente tem que ouvir o que a gente já sabe. Cada receita dessa é um beliscãozinho.
Outro dia, um amigo me jogou uma verdade que ardeu no rosto quando bateu. "É. Amor é assim mesmo. Você nunca sabe por quem vai se apaixonar. Você pode ser a garota mais perfeita do Universo e não vai adiantar nada se foi por ela que ele se apaixonou." Eu sabia disso. Mas quando vem de fora é outra coisa.
Essa semana ainda, me surpreendi lendo num texto que um cara que eu gostei muito está saindo com alguém. E eu não sabia que ele saía com outras pessoas? Pensei que depois de todo esse tempo, ele estaria esperando por mim? Não. Eu achava que ele saía com pessoas. Só que ver isso acontecendo é muito diferente do que somente pensar na possibilidade.


E há também o problema óbvio das receitas. Elas desandam.
Nesses sites, vários elogios para os textos apelativos e óbvios. Todos engolindo aquilo como se fosse a mais pura verdade e visivelmente planejando seguir a risca cada tópico. Comprando essas idéias de receitas pra viver, sem nem se perguntar direito se elas vão funcionar, simplesmente assumindo que tudo correrá dentro do planejado, basta seguir as instruções.
E por que será que as pessoas acreditam em receitas para a vida?
Acredito que há uma esperança lá no fundo da gente de que se a gente fizer tudo igual, vai conseguir o mesmo resultado. Tipo matemática. Sabe aquela inércia entranhada que eu falei outro dia? É isso mesmo. Mas acontece que a gente está aplicando isso para a vida. E na vida há muitas variáveis escondidas que saltam gritando detrás do sofá enquanto você está relaxado vendo tv.

O que eu queria dizer mesmo não é que essas receitas são completamente inúteis. São interessantes, porém tem que ser usadas com cautela. Como dicas talvez, e não como receitas, porque  na receita não diz, mas sempre tem algum ingrediente mágico faltando e que você vai ter que descobrir sozinho. E pasmem! O ingrediente mágico muda!
(É por isso que ele é mágico.)
É inevitável achar que o resultado vai ser sempre o mesmo. Só temos que estar prontos para reconhecer os ingredientes mágicos quando tropeçarmos neles.
E chega de metáforas! Acabou a história.